Getting Ready for the Ball
PAULA REGO / JOSÉ ANTÓNIO TENENTE
A Casa das Histórias Paula Rego /Fundação D. Luís I desenvolve a sua programação em torno do universo temático de Paula Rego, apresentando exposições diversificadas que têm a artista como centro e referência. Esta linha programática pretende evidenciar o caráter ilimitado da sua obra, que se cruza com outros domínios da arte, como a literatura, o cinema, o teatro ou a moda, não se cingindo à esfera das artes visuais.
Assumindo a importância dos trajes na obra da artista, em finais de 2024 foi apresentada a exposição Costumes and Pictures: o vestuário na obra de Paula Rego. Essa foi a primeira vez que o guarda-roupa do seu estúdio foi apresentado, de forma sistemática, em diálogo com as obras que lhe correspondem. Getting Ready for the Ball, a mostra agora patente, parte de um pressuposto diferente: aqui, o multifacetado imaginário da artista ganha forma para além da tela ou do papel, ao servir de ponto de partida para a Coleção Outono-Inverno de 2009/10 do estilista José António Tenente. Elegendo como referência obras de Rego produzidas a partir dos anos 1990, em particular aquelas em que as peças de vestuário são os elementos visuais dominantes na composição, esta Coleção foi desenvolvida e concebida numa relação direta com obras específicas da artista.
José António Tenente, desenhos preparatórios para vestidos de A marquesa saiu às cinco, 2009(os tres da esquerda), desenhos preparatórios para vestidos de A Prova, 2009 (os tres da direita)
Curadoria: CATARINA ALFARO E JOSÉ ANTÓNIO TENENTE
Na forma como veste as suas personagens, Paula Rego encontrou um modo de as caracterizar, explorando as dimensões psicológicas e psicossexuais da moda. Deste modo, pôde expressar a submissão reiterada da mulher, na cultura ocidental, à perpétua identificação com o modo como se veste. Consciente dessa extrema importância na definição temática da composição, a artista atribui ao vestuário uma forma de expressão pictórica superior. A partir dos anos 1990, o guarda-roupa passa a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, para além de se constituir como elemento cenográfico central na sua obra. Paralelamente, a qualidade pictórica das texturas dos tecidos é aprofundada nas suas pinturas na sequência da eleição do pastel seco, em 1994, como meio capaz de conferir uma solidez jamais alcançada com o óleo ou o acrílico. A sua maneira de manusear os pastéis revela-se complexa quando cria contrastes formais e materiais através da aplicação mais ou menos concentrada, com maior ou menor sobreposição de pigmentos, o que lhe permite a construção de texturas com uma dimensão quase tátil, numa meticulosa composição pictórica dos tecidos, das rendas, dos veludos, das pregas e dos panejamentos, camada por camada, mancha por mancha. Esta atenção ao pormenor é também conseguida nas suas obras litográficas, tanto assim que em algumas dessas suas obras as peças de vestuário são o principal foco de atração.
Paula Rego | Preparando-se para o baile/ Getting Ready for the Ball (promenor), 2001–02, Da série/ From the series “Jane Eyre”, Litografia colorida, Prova de Artista/ Coloured lithograph, Artist’s Proof, Mancha e papel/ Image and paper: 180 x 82,5 cm (cada/each), Edição/ Edition: 5/14, Col./ Coll. Câmara Municipal de Cascais/ Fundação D. Luís I/ Casa das Histórias Paula Rego, Inv. G418
Pode-se pois afirmar que a relação de Paula Rego com o vestuário é determinante na sua obra, e que a artista sempre reconheceu a importância deste para a identificação da atmosfera histórica e social das suas composições, explorando-o na caracterização psicológica das personagens: “As roupas dizem algo sobre a personalidade, sobre a personagem, sobre a sua posição social e sobre a época também. São um elemento muito importante no contexto de qualquer história visual”.
A apropriação e reinterpretação de referências faz parte do universo criativo de José António Tenente, característica comum com Paula Rego. Este diálogo foi assumido desde o início da conceção da Coleção Outono-Inverno de 2009/10, nos desenhos preparatórios também aqui apresentados, e tornou-se propositadamente evidente no desfile de apresentação. Na passerelle, os manequins seguravam cartões com os títulos das obras que tinham servido de base, todas elas representativas do percurso artístico de Paula Rego. A pintura de 1986 As Criadas, inspirada na peça de 1947 de Jean Genet, teve seis diferentes interpretações estilísticas. A Prova, de 1990 (obra que pode ser considerada como um primeiro ensaio da incorporação de peças de vestuário que, de certo modo, se tornam o verdadeiro motivo da pintura), originou uma recriação livre dos vestidos das três personagens da pintura: a rapariga que se prepara para “um baile de debutantes para arranjar noivo”, como afirmou Paula Rego, a mãe e a modista. Em vez de optar pela previsível escolha da volumosa saia de cetim que centraliza a pintura, Tenente criou um vestido em brocado com um padrão floral em relevo azul-noite. Os vestidos pretos da mãe e da modista adquirem complexidade decorativa através das rendas, cetim e malha rendada. Os tutus clássicos da série “Avestruzes Bailarinas”, realizada pela artista em 1995 e inspirada no filme de Walt Disney Fantasia, surgem desconstruídos. Ao introduzir tule preto na parte superior dos vestidos inspirados nesta série, Tenente confere-lhes um efeito vaporoso e uma leveza que sugere a graciosidade de movimentos que as avestruzes bailarinas de Paula Rego não têm. Os vestidos adquirem uma dramaticidade gótica que é, de certo modo, coincidente com a vontade de Paula Rego, que considerava as suas avestruzes bailarinas o coro de uma tragédia grega.
Paula Rego | A marquesa saiu às cinco/ The Marquise Went Out at Five, 2008, Grafite e lápis Conté sobre papel/ Graphite and Conté pencil on paper, 137×102 cm, Col./ Coll. Manuel de Brito
No ano seguinte, 1996, para executar a gravura Palha Ardente a artista recorre de novo aos tules, que alastram para além da figura feminina central, dominando a composição e contaminando a textura dos outros elementos figurativos, como os insetos gigantes ou o emaranhado de palha. Estes elementos são reinterpretados pelo estilista num vestido curto estruturado com falso casaquinho curto, com volume nas mangas e sobreposição de “emaranhado” de tule, acrescentando-lhe um acessório de cabeça, um véu, que contrasta com a imagem da água-forte pela sua sobriedade e elegância.
A Marquesa saiu às cinco, obra de grandes dimensões a grafite e lápis conté sobre papel, que marca na obra da artista a dissolução das fronteiras entre desenho, pintura e escultura, tem como referência principal o romance Casa de Campo de José Donoso. A escolha desta obra pelo designer é particularmente significativa, pois não é uma das mais conhecidas, e a reinterpretação das peças de vestuário presentes no desenho surpreende pela originalidade da escolha de um acessório, um chapéu, que é o único elemento de vestuário que tem uma correspondência direta com a composição de Paula Rego. Contudo, na sua reinterpretação, adquire um tratamento mais sofisticado, inclinado sobre a testa, em feltro roxo e véu de rede.
Tenente não poderia deixar de abordar a última pintura da série “O Crime do Padre Amaro”. Anjo, de 1998, pode ser considerada como a mais representativa da série, por sintetizar de forma clara o sentido interventivo do trabalho de Paula Rego, “entre a proteção e a vingança, o castigo e o perdão” e pela manifesta carga simbólica contida na presença desta mulher, simultaneamente vingadora e misericordiosa. O tratamento matérico dado às roupas potencia na pintura o peso da materialidade humanizada deste Anjo. É a mesma imagem de um anjo terreno, sem asas que lhe confiram um impulso ascendente, preso ao chão pelo excessivo comprimento da saia em tafetá de viscose changeant, que o designer transpõe para aquela que será a recriação mais próxima das pinturas da artista.
José António Tenente | A marquesa saiu às cinco, desfile da coleção José António Tenente Outono-Inverno 2009/10
Ambos os criadores estão conscientes da importância das imagens visuais associadas ao vestuário, ou vestuário-imagem na expressão de Roland Barthes para designar o vestuário enquanto representação visual, isto é, a roupa tal como é construída e carregada de significados — elegância, estatuto social, feminilidade. O conceito pode ser aplicado à pintura de Paula Rego, na medida em que apesar de vestir os seus modelos com vestuário real — a peça de roupa enquanto objeto material, ainda segundo Barthes — há sempre lugar para uma liberdade interpretativa. Também na obra do estilista, o exercício de observação e interpretação das texturas dos tecidos, da sua composição, dando-lhes vida própria, é muito semelhante. Tal como Paula Rego, também ele imagina o cair dos tecidos nos seus modelos, o modo como se adaptam aos corpos, como se modificam com o movimento. Mas o primado é, como deixou claro, sempre o do desenho: “O desenho é o meu material. Não corto, não coso. Em algumas coleções o trabalho manual é maior, com montagem de peças no corpo, ou sobreposição de tecidos no corpo. Mas, de um modo geral, não é assim. Desenho várias vezes, desenho várias proporções, desenho a mesma peça com outras possibilidades de conjugação. […] Só quando a peça está resolvida no desenho é que passa para a fase seguinte. Se não resulta, se não estou contente com o desenho, dificilmente passa dali.”
O diálogo com as obras da artista a partir do vestuário e da moda nega o recurso à colagem e à repetição. Ao afastar qualquer ideia de cópia, o processo criativo de José António Tenente traduz-se sobretudo numa transformação plástica e numa efetiva concretização material que está para além das obras de Paula Rego. Deste modo, a exposição dá-nos duas leituras que muitas vezes se sobrepõem na obra de ambos os criadores: vestir na arte, vestir na vida real.
AMIGO DA
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