Como é do conhecimento generalizado, a relação da família real portuguesa com as artes não se esgota no patrocínio ou na encomenda. Ao longo do século XIX e no início do século XX, o desenho, a gravura, a aguarela e a pintura fizeram também parte da prática pessoal de alguns dos seus membros. As obras reunidas pela Fundação D. Luís I permitem descobrir este lado menos conhecido de D. Fernando II, D. Pedro V, D. Luís I, D. Carlos I e D. Amélia, evocando ainda os artistas e os círculos culturais que os rodearam.
D. Carlos e os seus contemporâneos
D. Carlos ocupa um lugar central nesta exposição. Nas suas marinhas, paisagens e estudos, o olhar demora-se na luz, no movimento da água e nas formas da costa. O Farol de Santa Marta, pintado em Cascais em 1903, aproxima de modo particularmente claro a obra do rei deste lugar. A fotografia que o mostra a cavalo na vila e a composição de desenhos conservada no âmbito familiar acrescentam outras dimensões a esta presença: a imagem pública, a convivência e a circulação íntima das obras.
Rei D. Carlos (1863-1908) Farol de Sta. Martha, Cascais 1903 – Aguarela sobre papel colado em cartão, 18×27 cm
Em torno deste núcleo, o cartão litografado por D. Fernando II, os desenhos de D. Pedro V, as caricaturas de D. Luís I e os volumes de Mes dessins, de D. Amélia, revelam interesses e modos de expressão distintos. As obras de Enrique Casanova e de Maria Luísa de Sousa Holstein, duquesa de Palmela, alargam o percurso aos contemporâneos da família real. Retratos, objectos e publicações mostram igualmente como estas figuras foram representadas, recordadas e, por vezes, transformadas em memória colectiva.
D. Amélia de Orleães (Rainha de Portugal) Mes Dessins – Paris; Londres: Le Goupy; Maggs Bros., 1927-1928 Um dos livros míticos da primeira metade do século xx, inteiramente litografado e caligrafado, apresentando os desenhos um charme muito especial. O seu produto destinou-se à assistência nacional aos tuberculosos, instituição fundada por d. Amélia, em 1899. Dirigiu a edição o conde de sabugosa, grande e erudito bibliófilo, que não chegou a ver a obra concluída.
Apresentadas na Capela do Fundador, no Centro Cultural de Cascais, estas obras convidam a olhar para além dos títulos e das cerimónias. Entre o gesto de desenhar, a paisagem observada e os vestígios deixados pelo tempo, surge uma história feita de criação artística, relações pessoais e memória, à qual Cascais permanece intimamente ligado.



