CINEMA: 2026 ANO DE TODOS OS GÉNEROS
Em 2026, (quase) todos os géneros cinematográficos irão dar ao Auditórios do Centro Cultural de Cascais e da Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. Ao longo do ano e todas as segundas-feiras (salvo honrosas excepções), a Fundação D. Luís I propõe um programa que (re)visita alguns dos principais exemplos desses modelos que nasceram com a Sétima Arte e que se enraizaram enquanto formas de contar histórias por meio de imagens e sons.
Cada género terá direito ao seu mês. Começamos pelo “género dos géneros”, o western, principal criador de mitos sobre o nascimento e a gesta de uma nação, a América. Seguir-se-ão muitos outros, da comédia ao terror, do musical à ficção científica, com paragens de permeio nos apeadeiros do melodrama, do thriller ou da animação, entre outros. A viagem terá como centro a “fábrica de sonhos” por excelência que foi a Hollywood clássica, mas espraiar-se-á por diversas épocas, geografias e latitudes, num movimento que se estende por uma pluralidade de contextos socioculturais e que, como não podia deixar de ser, funcionará também como (mais) uma mini História do Cinema.
A cada passo, identificaremos fórmulas e códigos, mas também a subversão de convenções, temas e estilos, traçando-se assim os contornos de universos em permanente mutação e actualização, longe de eventuais realidades cristalizadas. Por isso mesmo, a par de artesãos e “cineastas de género”, encontraremos igualmente autores das mais díspares sensibilidades, nuns casos pegando nessas “molduras comuns” para melhor explorar obsessões pessoais e idiossincrasias muito particulares, noutros “apagando-se” voluntariamente perante a força de arquétipos entronizados e assim paradoxalmente se reinventarem.
Entre a alegria do reconhecimento e o prazer da surpresa, entre o cânone e as suas múltiplas declinações, não faltarão portanto motivos de fruição de um “jogo” onde caberiam naturalmente outros tantos (sub)géneros e intervenientes. Que venham os próximos capítulos…
Vasco T. Menezes
Género
No Merriam Webster Dictionary a definição de género é a seguinte: a category of artistic, musical, or literary composition characterized by a particular style, form, or content, o que significa que é uma designação que pode ser aplicada praticamente a todas as manifestações artísticas, desde a literatura ao cinema, passando pela música, pelas artes visuais e performativas.
No cinema, género é uma categoria lata que classifica as produções cinematográficas com base em determinadas características partilhadas que incluem convenções narrativas, temas e estilos visuais. Estas categorias fornecem uma moldura para o modo como se compreendem e interpretam os filmes, permitindo igualmente antecipar de alguma maneira as reações e expectativas do(s) público(s). Os géneros podem subdividir-se em subgéneros, i. e., categorias mais especializadas que apresentam traços específicos, como temas, cenários ou elementos estilísticos (estilemas): por exemplo, os filmes de terror têm vários subgéneros que facilitam a identificação de certos modelos narrativos (gore é um caso). Por outro lado, importa referir que quer géneros quer subgéneros podem ser objecto de contaminação: provavelmente será difícil encontrar na presente realidade da produção cinematográfica mundial exemplos de géneros ou subgéneros “puros”, como acontecia no cinema clássico.
Ao longo de 2026 a Fundação D. Luís I irá percorrer, nos Auditórios do Centro Cultural de Cascais e da Casa das Histórias Paula Rego, muitos géneros e subgéneros cinematográficos apresentando filmes cuja genologia é mais ou menos facilmente identificável.
STM
Ficção Científica
Sendo por natureza um género “prospectivo”, dedicado a imaginar possibilidades alternativas e realidades paralelas, a Ficção Científica encontra nas potencialidades visuais do cinema um habitat natural para florescer a partir das suas raízes literárias. Com efeito, desde os seus primórdios que a FC cinematográfica tem encetado um proveitoso diálogo com os seus antepassados no domínio da literatura: considerado o primeiro filme do género, Le Voyage dans la Lune, de Méliès, ia buscar inspiração não só a Júlio Verne como a H. G. Wells, numa associação entre cineastas e escritores que perdura até hoje. Ao longo dos anos, a FC foi desenrolando vários fios narrativos pelos quais pululam robôs, extraterrestres, mutantes, naves espaciais, viagens interestelares e no tempo ou sociedades futuristas (por vezes, utópicas, mas, claro, maioritariamente distópicas). E quase sempre como espelho dos “ares do tempo”: se o medo do nuclear e da “ameaça vermelha” da Guerra Fria encheu os ecrãs de criaturas radioactivas (formigas, tarântulas ou lagartos gigantes como o nipónico Gojira/Godzilla, “pai” de todo um subgénero, o kaiju, que fez as delícias da indústria japonesa) e de invasões alienígenas (quase invariavelmente alegorias anticomunistas, mas com espaço para esse portento de ambiguidade chamado Invasion of the Body Snatchers, de Don Siegel, para muitos uma virulenta crítica ao conformismo McCarthista), a paranóia conspirativa dos anos 1970 permeia muitos títulos essenciais como Silent Running, Soylent Green ou THX 1138, entre tantos outros. E se desde o início o género interessou os mais reputados autores – Lang e Metropolis, mas também Kubrick (2001) e Tarkovski (Solaris e Stalker) –, a partir de certa altura, assistiu-se a uma hibridização, com a FC a “polinizar” (ou será ao contrário?) o terror, a comédia, o western ou até o filme de samurais, não poucas vezes com contornos “catastrofistas”. Dado o estado actual do mundo, não parecem faltar razões para que se continue a ouvir o célebre aviso: “Watch the skies!”…[1]
[1] Assinale-se que o grande teórico norte-americano Fredric Jameson (Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions, Londres: Verso, 2005) considera a ficção científica não como previsão do futuro mas como modo de historicizar o presente e forma moderna de utopia negativa e ambígua, funcionando como laboratório narrativo para pensar ideologia, totalidade e sistema social.
VTM
Programação de Cinema de Ficção Científica
Auditório do Centro Cultural de Cascais
O Dia em que a Terra Parou
The Day the Earth Stood Still (1951) | Realização: Robert Wise | Intérpretes: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Billy Gray, Frances Bavier, Lock Martin, etc. | 92 minutos. Legendado em inglês e espanhol.
Artesão “topa-a-tudo” como já não se fazem, Robert Wise teve um percurso deveras heteróclito, começando como exímio montador para (e aprendiz de) Orson Welles para depois, ainda na RKO, absorver os ensinamentos do terror “atmosférico” da dupla Jacques Tourneur/Val Lewton que tão bem lhe serviram ao dirigir essa obra-prima do medo em estado puro que é The Haunting. E se pensarmos nos mega-musicais perenemente populares West Side Story e Música no Coração (o que seria do Natal televisivo sem ele?), já ficaremos com uma ideia do admirável ecletismo do realizador. Nesta FC pacifista, em contracorrente com os seus contemporâneos da era atómica, a ameaça não é o “outro” mas os humanos e as suas pulsões bélicas: caso a corrida ao armamento e a proliferação nuclear não terminem na Terra, o restante universo será obrigado a intervir… Destaque para o preto-e-branco fortemente contrastado de Leo Tover, a música “alienígena” de Bernard Herrmann e, claro, o robô gigante Gort, que só pode ser parado pelas imortais palavras “Klaatu barada nikto”. Um clássico de visionamento obrigatório para os nossos líderes mundiais…
Auditório do Centro Cultural de Cascais
Estrela Negra
Dark Star (1974) | Realização: John Carpenter | Intérpretes: Dan O’Bannon, Brian Narelle, Cal Kuniholm, Dre Pahich, Nick Castle, John Carpenter (voz), etc. | 83 minutos. Legendado em inglês.
“À Espera de Godot no espaço”. Foi assim que Carpenter descreveu a sua primeira longa-metragem, uma resposta paródica à solenidade de 2001, tomando de empréstimo a iconoclastia de outro modelo kubrickiano, Dr. Strangelove. Verdadeiro labour of love co-escrito pelo realizador e por Dan O’Bannon (uma das peças fulcrais do disputado guião de Alien e futuro realizador do delicioso e muito punk Return of the Living Dead) quando ainda estudavam na USC, esta mistura lisérgica e psicadélica de astronautas hippies, colonialismo intergaláctico, bombas verdadeiramente inteligentes e ETs em forma de bolas de praia faz maravilhas com um orçamento baixíssimo e anunciou ao mundo a chegada de um dos grandes cineastas contemporâneos, ferozmente individualista e paradoxalmente (?) classicista. FC para surfistas + western velado (uma constante carpentariana) = cult movie. O tédio nunca foi tão divertido.
Auditório do Centro Cultural de Cascais
Aliens: O Recontro Final
Aliens (1986) | Realização: James Cameron | Intérpretes: Sigourney Weaver, Michael Biehn, Carrie Henn, Lance Henriksen, Bill Paxton, Paul Reiser, Jenette Goldstein, William Hope, etc. | 137 minutos. Legendado em português.
Nos bons velhos tempos, James Cameron era o senhor absoluto e rei não do mundo mas do destroy cinema dos anos 1980 (vá lá, o trono pode ser disputado pela elegância “geométrica” de John McTiernan). Ao dar continuidade à franchise iniciada por Ridley Scott, o canadiano carrega nas virtudes da claustrofobia e tensão exibidas pelo inglês (que nunca mais fez outro filme tão bom), substituindo ao mesmo tempo brilho “publicitário” por viscosidade catártica. O resultado é um espectáculo visceral, com um notável sentido de ritmo (a “lentidão” da primeira metade a ceder lugar à explosividade trepidante da segunda) e efeitos ainda hoje realmente “especiais”. No fundo, um glorioso filme de guerra (vertente patrulha) sobre a natureza humana, com a comovente figura do andróide Bishop a rimar com o ciborgue alternadamente nefasto e benigno da saga Terminator. A liderar o grupo de marines interpretado por comparsas habituais de Cameron, a extraordinária Sigourney Weaver na pele do seu “alter ego” Ripley (que, num golpe de génio, Walter Hill e David Giler transformaram numa mulher ao reescreverem decisivamente o guião do primeiro filme), aqui tornada “mãe guerreira” tão ao gosto do realizador. Depois da “casa assombrada” de Alien, uma montanha-russa de emoções, caso raro da sequela capaz de ultrapassar o original.
Auditório do Centro Cultural de Cascais
Planeta dos Macacos
Planet of the Apes (2001) | Realização: Tim Burton | Intérpretes: Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Kris Kristofferson, Estella Warren, Paul Giamatti, David Warner, Cary-Hiroyuki Tagawa, Lisa Marie, Glenn Shadix, etc. | 120 minutos. Legendado em português.
Cinco filmes e duas séries de TV (uma de animação): era esse, no dealbar do séc. XXI, o saldo cinematográfico do romance de Pierre Boule quando o projecto em longuíssima gestação de um remake da célebre distopia simiesca protagonizada por Charlton Heston foi por fim concretizado (desde então, houve mais um reboot com direito às suas próprias continuações). Não seria a escolha mais óbvia para o “príncipe do bizarro” Burton e essa subversão de expectativas “autorísticas” talvez explique a relativa incompreensão com que o filme foi recebido. No entanto, a corajosa vontade de reinvenção do cineasta é mais do que lógica, seguindo-se a Sleepy Hollow, carta de amor ao fantástico barroco da Hammer e de Mario Bava que já continha as sementes da (auto-)irrisão. Para além de todo o aparato cenográfico desta FC “musculada”, sobressai ainda o esplendor dos talentos dos magos Rick Baker (maquilhagem) e Danny Elfman (partitura). E, claro, a pungente homenagem a Heston, num inusitado cameo, piscadela de olho que assenta como uma luva à re-imaginação do icónico original de 1968. Subestimado blockbuster de acção, por trás dele esconde-se uma produção atribulada (e, segundo rezam as más-línguas, demasiado apressada), mas que em nada diminui o peso da sua meditação “shakespeariana” sobre o poder.
2026, o Ano de Todos os Géneros
Janeiro – WESTERN
A Quadrilha Selvagem/ The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah; A Noite Fez-se para Amar/ McCabe and Mrs. Miller (1971), de Robert Altman; Johnny Guitar (1953), de Nicholas Ray; Duelo no Deserto/The Shooting (1966), de Monte Hellman
Fevereiro – COMÉDIA
As Férias do Senhor Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot (1953), de Jacques Tati; Dr. Estranho Amor/Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964), de Stanley Kubrick; Vejo Tudo Nu/Vedo nudo (1969), de Dino Risi; Annie Hall (1977), de Woody Allen
Março – MELODRAMA
O Monte dos Vendavais/Wuthering Heights (1939), de William Wyler; Fúria de Viver/Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray; O Grande Amor da Minha Vida/ An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey; O Meu Maior Pecado/The Tarnished Angels (1957); Longe do Paraíso/Far From Heaven (2002), de Todd Haynes
Abril – MUSICAL
Serenata à Chuva/Singing in the Rain (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly; A Roda da Fortuna/The Band Wagon (1953), de Vincente Minnelli; Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes; As Canções de Amor/ Les chansons d’amour (2007), de Christophe Honoré
Maio – GUERRA
Baionetas Caladas/Fixed Bayonets! (1951), de Samuel Fuller; O Caçador/The Deer Hunter (1978), de Michael Cimino; Apocalypse Now – Final Cut (1979/2019), de Francis Ford Coppola; Estado de Guerra/The Hurt Locker (2008), de Kathryn Bigelow
Junho – THRILLER
O Tesouro da Sierra Madre/The Treasure of the Sierra Madre (1948), de John Huston; Ferro em Brasa/Charley Varrick (1973), de Don Siegel; Blow Out – Explosão/Blow Out (1981), de Brian De Palma; O Jogo/The Game (1997), de David Fincher; Eu Vi o Diabo/I Saw the Devil (2010), de Kim Jee-woon
Julho – ANIMAÇÃO
Pantera Cor-de-Rosa/The Pink Panther Cartoons (1964-65), de Friz Freleng e outros; O Estranho Mundo de Jack/Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas (1993), de Henry Selick; Looney Tunes: De Novo em Acção/Looney Tunes: Back in Action (2003), de Joe Dante; Belleville Rendez-Vous/Les triplettes de Belleville (2003), de Sylvain Chomet
Agosto – DOCUMENTÁRIO
Punishment Park (1971), de Peter Watkins; Grey Gardens (1975), de Albert Maysles e David Maysles; O Homem dos Músculos de Aço/Pumping Iron (1977), de George Butler e Robert Fiore; Burden of Dreams (1982), de Les Blank; Donos de Estimação/Best in Show (2000), de Christopher Guest
Setembro – FICÇÃO CIENTÍFICA
O Dia em que a Terra Parou/The Day the Earth Stood Still (1951), de Robert Wise; Estrela Negra/Dark Star (1974), de John Carpenter; Aliens: O Recontro Final/Aliens (1986), de James Cameron; Planeta dos Macacos/Planet of the Apes (2001), de Tim Burton
Outubro – TERROR
Frankenstein (1931), de James Whale; Psico/Psycho (1960), de Alfred Hitchcock; A Vítima do Medo/Peeping Tom (1960), de Michael Powell; A Noite dos Mortos-Vivos/Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero
Novembro – POLICIAL
Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston; À Beira do Abismo/The Big Sleep (1946), de Howard Hawks; Os Incorruptíveis Contra a Droga/The French Connection (1971), de William Friedkin; A Fúria da Razão/Dirty Harry (1971), de Don Siegel; O Profissional/The Driver (1978), de Walter Hill
Dezembro – SUSPENSE
Mentira/Shadow of a Doubt (1943), de Alfred Hitchcock; Que Teria Acontecido a Baby Jane?/What Ever Happened to Baby Jane (1962), de Robert Aldrich; O Obcecado/The Collector (1965), de William Wyler; O Plano/A Simple Plan (1998), de Sam Raimi
AMIGO DA
FUNDAÇÃO



