2026 ANO DE TODOS OS GÉNEROS
Em 2026, (quase) todos os géneros cinematográficos irão dar ao Auditório Carlos Avilez, no Estoril. Ao longo do ano e todas as segundas-feiras (salvo honrosas excepções), a Fundação D. Luís I propõe um programa que (re)visita alguns dos principais exemplos desses modelos que nasceram com a Sétima Arte e que se enraizaram enquanto formas de contar histórias por meio de imagens e sons.
Cada género terá direito ao seu mês. Começamos pelo “género dos géneros”, o western, principal criador de mitos sobre o nascimento e a gesta de uma nação, a América. Seguir-se-ão muitos outros, da comédia ao terror, do musical à ficção científica, com paragens de permeio nos apeadeiros do melodrama, do thriller ou da animação, entre outros. A viagem terá como centro a “fábrica de sonhos” por excelência que foi a Hollywood clássica, mas espraiar-se-á por diversas épocas, geografias e latitudes, num movimento que se estende por uma pluralidade de contextos socioculturais e que, como não podia deixar de ser, funcionará também como (mais) uma mini História do Cinema.
A cada passo, identificaremos fórmulas e códigos, mas também a subversão de convenções, temas e estilos, traçando-se assim os contornos de universos em permanente mutação e actualização, longe de eventuais realidades cristalizadas. Por isso mesmo, a par de artesãos e “cineastas de género”, encontraremos igualmente autores das mais díspares sensibilidades, nuns casos pegando nessas “molduras comuns” para melhor explorar obsessões pessoais e idiossincrasias muito particulares, noutros “apagando-se” voluntariamente perante a força de arquétipos entronizados e assim paradoxalmente se reinventarem.
Entre a alegria do reconhecimento e o prazer da surpresa, entre o cânone e as suas múltiplas declinações, não faltarão portanto motivos de fruição de um “jogo” onde caberiam naturalmente outros tantos (sub)géneros e intervenientes. Que venham os próximos capítulos…
Vasco T. Menezes
Género que é, com o western, especificamente conatural ao cinema norte-americano, o musical tem origem no advento do cinema sonoro, portanto nos finais dos anos 20 do século passado. E como género de grande produção é possível dizer dele que desaparece por volta de meados dos anos 60, sobrevivendo apenas em obras por certo muito louváveis mas esporádicas. Como acontece, em certos casos, com outros géneros, mas com menores implicações histórico-culturais, o musical é essencialmente evasão para um colorido mundo onírico, cheio de serenidade e alegria. É, em certo sentido, a mais pura realização da poética do entertainment (que é, afinal, a poética hollywoodiana). E por isso é um dos géneros mais emblemáticos do cinema norte-americano.
Do ponto de vista narratológico, o musical compendia o tema primário da comédia (o amor conquistado) e da aventura (o êxito conquistado). No cinema musical, efectivamente, contam-se sempre acontecimentos ligados a uma ou mais pessoas que, por meio da superação de uma série de “provas” (os números musicais), alcançam a sua triunfal realização quer no plano individual, privado, quer no plano profissional, público, frequentemente no mundo do espectáculo, mas também nos seus equivalentes, que podem ser, por exemplo, o mundo da arte ou da moda. Mas o mais habitual é, de facto, o mundo do espectáculo, de preferência o do próprio musical, que deve ser montado e posto em cena superando todo e qualquer obstáculo. O grande êxito que o(s) protagonista(s) acaba(m) por obter é simultaneamente prémio pela penitência (jejum) prévia, revelação (ou consagração) de um grande talento, e reconhecimento oficial de uma ligação amorosa nascida durante a fase de trabalho conjunto.
STM
CINEMA NO CRUZEIRO
MÊS DO MUSICAL
6, 13, 20 e 27 de abril de 2026, no Cruzeiro
Género que é, com o western, especificamente conatural ao cinema norte-americano, o musical tem origem no advento do cinema sonoro, portanto nos finais dos anos 20 do século passado. E como género de grande produção é possível dizer dele que desaparece por volta de meados dos anos 60, sobrevivendo apenas em obras por certo muito louváveis mas esporádicas. Como acontece, em certos casos, com outros géneros, mas com menores implicações histórico-culturais, o musical é essencialmente evasão para um colorido mundo onírico, cheio de serenidade e alegria. É, em certo sentido, a mais pura realização da poética do entertainment (que é, afinal, a poética hollywoodiana). E por isso é um dos géneros mais emblemáticos do cinema norte-americano.
Do ponto de vista narratológico, o musical compendia o tema primário da comédia (o amor conquistado) e da aventura (o êxito conquistado). No cinema musical, efectivamente, contam-se sempre acontecimentos ligados a uma ou mais pessoas que, por meio da superação de uma série de “provas” (os números musicais), alcançam a sua triunfal realização quer no plano individual, privado, quer no plano profissional, público, frequentemente no mundo do espectáculo, mas também nos seus equivalentes, que podem ser, por exemplo, o mundo da arte ou da moda. Mas o mais habitual é, de facto, o mundo do espectáculo, de preferência o do próprio musical, que deve ser montado e posto em cena superando todo e qualquer obstáculo. O grande êxito que o(s) protagonista(s) acaba(m) por obter é simultaneamente prémio pela penitência (jejum) prévia, revelação (ou consagração) de um grande talento, e reconhecimento oficial de uma ligação amorosa nascida durante a fase de trabalho conjunto.
6 Abr | 21h
Serenata à Chuva/ Singin’ in the Rain
(1952) Realização: Stanley Donen e Gene Kelly Intérpretes: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Cyd Charisse, Rita Moreno, etc. 103 minutos. Legendado em português.
Mais de vinte anos depois do advento do sonoro, Serenata à Chuva é o primeiro filme que conta, com a técnica do “cinema dentro do cinema”, a atormentada passagem de Hollywood de uma forma a outra. Foram muito discutidos (às vezes com total vacuidade) os méritos recíprocos dos dois realizadores: provavelmente, o êxito deste musical por excelência (que já faz parte da mitologia do cinema) reside na relação harmónica que o duo conseguiu alcançar, relação em que S. Donen vigia ao milímetro a dosagem de eventos e surpresas e G. Kelly borda sequências, entre as quais é famoso o sonho que tem como protagonista um jovem provinciano que chega a Nova Iorque (e aqui aparece Cyd Charisse que, pelo menos no plano do fascínio e das qualidades gímnicas, abafa a presença de D. Reynolds). Normalmente utilizado como cómico, D. O’Connor atinge finalmente uma quota de primeiro plano interpretando alguns números – a dança no estúdio, por exemplo) que passaram a fazer parte da “moviola mnemónica” de todos os cinéfilos.
STM
13 Abr | 21h
A Roda da Fortuna/The Band Wagon
(1953) Realização: Vincente Minnelli Intérpretes: Jack Buchanan, Fred Astaire, Cyd Charisse, Oscar Levant, Ava Gardner, etc. 112 minutos. Legendado em português.
De Fausto à grande comédia musical: a trama de A Roda da Fortuna pode sintetizar-se neste acertado esquema narrativo. No centro da história está o bailarino Tony Hunter, antes herói da Broadway, e o filme é por muitos considerado uma espécie de “pôr-do-sol” da comédia em música, mas ninguém foi capaz de imaginar que esta saída de cena pudesse ser tão triunfal. Finalmente reunida a espectacular parelha Charisse/Astaire e exaltado, mesmo além da máquina de filmar, o histrionismo criativo do último, que, no fundo, se interpreta a si próprio, Minelli supera-se a compor e expressar todas as situações marginais, confiando em intérpretes que são mais do que amigos, como são os casos de O. Levant e A. Gardner, que faz dela própria. Também foi atribuída a realização do filme a Arthur Freed, que o produziu, mas quando se vê com a indispensável atenção esta obra-prima torna-se evidente a inconfundível marca de Minnelli.
STM
20 Abr | 21h
Velvet Goldmine
Realização: Todd Haynes Intérpretes: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers, Christian Bale, Toni Collette, Eddie Izzard, etc 124 minutos. Legendado em português.
Ambientado na Londres dos anos 70, Velvet Goldmine é uma fantasia pop constelada de andróginas estrelas rock. O filme inicia-se com o falso assassinato em palco de Slade (Jonathan Rhys Meyers), que incarna diversas figuras do universo musical: Marc Bolan, Bowie, talvez Oscar Wilde, que se torna o antepassado ideal do glam rock (na sequência inicial, um Wilde criança diz que quando crescer que ser uma pop star. Este tema condutor é representado por um broche de diamante verde, misteriosamente vindo do espaço (referência a Ziggy Stardust) que acaba nas mãos do dandy poeta, depois passado de mão em mão aos protagonistas do filme. Neste sentido, Velvet Goldmine é um filme profundamente britânico, pátria ideal da pop-rock, de uma revolução iniciada com o “divismo” dos finais do século XIX e continuada durante todo o século passado. No que respeita à trama, o espectador descobre imediatamente que a morte de Brian Slade é fingida, um embuste do cantor logo desmascarado pela imprensa. Depois passa-se a Nova Iorque (1984), que, com as suas tonalidades sombrias, evoca um cenário quase orwelliano e reaganiano (agora trumpiano), com o zunido dos altifalantes que transmitem ininterruptamente publicidade. Embora possa não ser explicitamente referida, a SIDA impregna tacitamente este espaço cinzento: aliás, este é um dos temas recorrentes do New Queer Cinema, que, de acordo com alguns críticos, nasce justamente com o vídeo dos activistas da SIDA marcado pela reapropriação do imaginário mainstream e pela vontade de o misturar com o desejo de chocar e revitalizar o debate político. Em Velvet Goldmine pode não haver um protesto explícito, mas há a oposição continuada do mundo glam, inglês, livre e colorido, ao capitalismo norte-americano opressivo, onde as vozes da comunidade queer são subjugadas pela sensação de medo. O dualismo é claramente sublinhado pela fotografia, muito mais sombria nos segmentos dos anos 80, pela cenografia e pelo guarda-roupa das personagens, que usam tons escuros, e não possui o mínimo resquício do brilho que, pelo contrário, abunda nos flashbacks.
STM
27 Abr | 21h
As Canções de Amor/ Les chansons d’amour
(2007) Realização: Christophe Honoré Intérpretes: Louis Garrel, Ludivine Segnier, Chiara Mastrioanni, Clotilde Hesme, Grégoire Leprince Ringuet, etc 100 minutos. Legendado em português.
Produzido por Paulo Branco, o filme de Honoré é uma homenagem, já que faz citações explícitas e implícitas ao cinema de J. Demy, do qual replica o modelo de musical realista e cruel em que se canta a quotidianidade problemática, o fim feliz não está garantido, a sociedade é classista e o compromisso político é inequívoco. Assim: o estudante liceal Erwann é um activista, L’ Actu (o jornal em que trabalham Ismaël e Alice) é crítico de Sarkozy (o filme é ambientado na sua fortaleza eleitoral, o X arrondissement), a cidade é sempre cinzenta e o olhar sobre ela isento de qualquer tipo de romantismo.
Les chansons d’amour, primeiro grande êxito de Honoré, toca o espectador pela sinceridade da estrutura dramática, o espírito livre que anima os enlaces da declarada – desde o título – temática amorosa declinada segundo esquemas que recusam as linhas tradicionais. Na história de Ismaël, nome do narrador/“herói” de Moby Dick, e das personagens que gravitam à volta dele, o amor é fluido, manifestando-se numa ordem complexa de combinações imprevisíveis (de novo a figura tutelar de Demy, cineasta que sempre esteve na vanguarda das descrições do universo familiar: pense-se na relação mãe-filha que muitas vezes não prevê a presença de um pai), a morte é um espectro que surge sem aviso prévio, as canções de Alex Beaupain que, ao dar voz ao indizível, afastam a tragédia sublimando-a. Como ocorre noutros filmes do realizador, se é verdade que a desordem sentimental pode determinar infelicidade, também não são de desprezar os limites e os laços constrangedores que a monogamia burguesa impõe.
STM
2026, o Ano de Todos os Géneros
Janeiro – WESTERN
A Quadrilha Selvagem/ The Wild Bunch (1969), de Sam Peckinpah; A Noite Fez-se para Amar/ McCabe and Mrs. Miller (1971), de Robert Altman; Johnny Guitar (1953), de Nicholas Ray; Duelo no Deserto/The Shooting (1966), de Monte Hellman
Fevereiro – COMÉDIA
As Férias do Senhor Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot (1953), de Jacques Tati; Dr. Estranho Amor/Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964), de Stanley Kubrick; Vejo Tudo Nu/Vedo nudo (1969), de Dino Risi; Annie Hall (1977), de Woody Allen
Março – MELODRAMA
O Monte dos Vendavais/Wuthering Heights (1939), de William Wyler; Fúria de Viver/Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray; O Grande Amor da Minha Vida/ An Affair to Remember (1957), de Leo McCarey; O Meu Maior Pecado/The Tarnished Angels (1957); Longe do Paraíso/Far From Heaven (2002), de Todd Haynes
Abril – MUSICAL
Serenata à Chuva/Singing in the Rain (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly; A Roda da Fortuna/The Band Wagon (1953), de Vincente Minnelli; Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes; As Canções de Amor/ Les chansons d’amour (2007), de Christophe Honoré
Maio – GUERRA
Baionetas Caladas/Fixed Bayonets! (1951), de Samuel Fuller; O Caçador/The Deer Hunter (1978), de Michael Cimino; Apocalypse Now – Final Cut (1979/2019), de Francis Ford Coppola; Estado de Guerra/The Hurt Locker (2008), de Kathryn Bigelow
Junho – THRILLER
O Tesouro da Sierra Madre/The Treasure of the Sierra Madre (1948), de John Huston; Ferro em Brasa/Charley Varrick (1973), de Don Siegel; Blow Out – Explosão/Blow Out (1981), de Brian De Palma; O Jogo/The Game (1997), de David Fincher; Eu Vi o Diabo/I Saw the Devil (2010), de Kim Jee-woon
Julho – ANIMAÇÃO
Pantera Cor-de-Rosa/The Pink Panther Cartoons (1964-65), de Friz Freleng e outros; O Estranho Mundo de Jack/Tim Burton’s The Nightmare Before Christmas (1993), de Henry Selick; Looney Tunes: De Novo em Acção/Looney Tunes: Back in Action (2003), de Joe Dante; Belleville Rendez-Vous/Les triplettes de Belleville (2003), de Sylvain Chomet
Agosto – DOCUMENTÁRIO
Punishment Park (1971), de Peter Watkins; Grey Gardens (1975), de Albert Maysles e David Maysles; O Homem dos Músculos de Aço/Pumping Iron (1977), de George Butler e Robert Fiore; Burden of Dreams (1982), de Les Blank; Donos de Estimação/Best in Show (2000), de Christopher Guest
Setembro – FICÇÃO CIENTÍFICA
O Dia em que a Terra Parou/The Day the Earth Stood Still (1951), de Robert Wise; Estrela Negra/Dark Star (1974), de John Carpenter; Aliens: O Recontro Final/Aliens (1986), de James Cameron; Planeta dos Macacos/Planet of the Apes (2001), de Tim Burton
Outubro – TERROR
Frankenstein (1931), de James Whale; Psico/Psycho (1960), de Alfred Hitchcock; A Vítima do Medo/Peeping Tom (1960), de Michael Powell; A Noite dos Mortos-Vivos/Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero
Novembro – POLICIAL
Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston; À Beira do Abismo/The Big Sleep (1946), de Howard Hawks; Os Incorruptíveis Contra a Droga/The French Connection (1971), de William Friedkin; A Fúria da Razão/Dirty Harry (1971), de Don Siegel; O Profissional/The Driver (1978), de Walter Hill
Dezembro – SUSPENSE
Mentira/Shadow of a Doubt (1943), de Alfred Hitchcock; Que Teria Acontecido a Baby Jane?/What Ever Happened to Baby Jane (1962), de Robert Aldrich; O Obcecado/The Collector (1965), de William Wyler; O Plano/A Simple Plan (1998), de Sam Raimi
AMIGO DA
FUNDAÇÃO


