Nascida em Salto, Montalegre, mas íntima e intensamente ligada ao meio artístico do Porto, Fátima Carvalho começou a fotografar na década de 1990, sendo que, na sua obra, a câmara se detém perante aquilo que vive e se transforma: árvores antigas, flores, frutos. É por isso que, mais do que escolher motivos naturais, a fotógrafa procura tornar sensível a duração (tensão temporal) própria de cada um deles.
Em Árvores Vigilantes do Tempo, primeiro subtítulo de Árvores & Flores, o ponto de partida é o carvalho da sua terra. A série reúne árvores centenárias, fotografadas a preto e branco e apresentadas sobre papel e linho artesanal. As rugas dos troncos e o peso das sombras fazem delas presenças singulares, que guardam vestígios de um tempo anterior ao nosso. Os textos que acompanham a série ampliam esta leitura: Rosa Alice Branco aproxima raízes e olhar; Maria do Carmo Serén vê nas árvores testemunhas do tempo histórico e José Manuel Mendes reconhece nas imagens um «poema botânico». A fotografia entra, deste modo, em diálogo com a palavra sem se perder a força concreta das árvores que mostra.
Em Flores e Frutos, segundo subtítulo, são, naturalmente, as flores e os frutos que lhe ocupam o centro da atenção. A sua beleza surge ligada à maturação, ao envelhecimento e à mudança de forma, tendo José Tolentino de Mendonça observado, a propósito destes trabalhos, que Fátima Carvalho regressa aos mesmos motivos em diferentes estados e sob diferentes luzes: cada fotografia resulta de uma espera e de uma nova aproximação. O que se vê é uma forma num instante da sua vida, aberta ao que a precedeu e ao que virá depois.
Refira-se, a concluir, que há sempre uma dimensão poética nas fotografias de Fátima Carvalho, e esta relação da fotógrafa com a poesia já atravessa Manhã Total, livro de homenagem a Eugénio de Andrade, de quem foi amiga. Talvez resida aí a chave para apreciar o conjunto da sua obra: como é exigido na leitura de poesia, olhar as imagens de Fátima Carvalho implica tempo. E este tempo permite descobrir, numa árvore ou numa flor, uma qualidade única que a observação apressada deixaria passar.
Salvato Teles de Menezes
Presidente
O Amor é a Origem das Espécies
José Tolentino Mendonça
Propositadamente, Fátima Carvalho não fixa com rigidez estas formas, mas intercepta-as no acontecer, para sondar o que significa o seu fluxo, incompleto, dorido e extasiado. Não há, portanto, nas obras aqui expostas, a pretensão de imobilizar num contorno estável aquilo que, naturalmente, resiste a toda a fixação: há, antes, uma disponibilidade para escutar o complexo e o aberto; há uma atenção dirigida ao fluir misterioso que atravessa a natureza, e nos arrasta a nós, e que se recusa a resolver-se em narrativa explicativa. Fátima Carvalho pensa o seu contributo artístico como uma rede de sobrevivências que se prolongam e iluminam, como se cada imagem fosse, ao mesmo tempo, ponto de chegada e lugar de partida para uma travessia mais vasta. Por isso, uma única flor, um único fruto (isolados e, no entanto, nunca verdadeiramente sós) têm a capacidade de falar à paisagem inteira, condensar nela toda a memória do que a terra dá e recebe de volta.
Há neste operar uma forte dimensão sapiencial: o trabalho da artista não ilustra um saber adquirido antes da obra, uma ideia já delineada que a imagem viesse apenas confirmar ou traduzir, mas afirma um conhecimento que se produz durante o próprio processo, por acumulação de empatia e de silêncio. Cada série é um percurso de pesquisa, no sentido antigo, quase monástico, de uma atenção sustentada que vai revelando progressivamente aquilo que a pressa não deixaria ver — uma espécie de exercício espiritual onde a repetição não é insone rotina, mas disciplina que afina o olhar. Representar a mesma flor vezes sem conta, fotografar o mesmo fruto em diferentes estados e luzes não é repetição estéril: é método, é uma ciência (e uma consciência de si) que só um agudo discernimento permite alcançar. Cada regresso ao mesmo motivo é, contudo, um afastamento subtil desse motivo, porque nada se repete verdadeiramente igual — a luz altera-se, a matéria amadurece ou seca, o olhar que observa não é exactamente o mesmo.
Santo Agostinho, nas Confissões, desmontou a ilusão de um tempo objetivo, exterior à consciência, mensurável independentemente de quem o experimenta. Perguntava-se onde estaria o passado, se já não existe senão na memória que dele mantemos; ou onde podemos encontrar o futuro, se ainda não chegou e existe apenas como expectativa. E concluía que o tempo só existe no presente da alma que o mede — dividido entre memória, atenção e expectativa, três faces de um único ato interior. Este é um entendimento que percorre a belíssima exposição de Fátima Carvalho como uma corrente subterrânea: o tempo da flor não é o tempo do calendário, mas o tempo interior, tenso, sem garantias, de quem a acompanha até ao fim. Cada obra de Fátima Carvalho é uma possibilidade de medição desse tempo psíquico — não quanto tempo passou, cronometricamente, mas quanto tempo foi vivido, decantado pela espera, para que algo mais verdadeiro possa ocorrer.
Nesse sentido, pode resultar interessante avizinhar o trabalho de Fátima Carvalho do pensamento da filósofa Donna Haraway, como ressonância possível entre dois modos de habitar o mundo vivo. Haraway recusa a ideia de que a natureza seja um pano de fundo passivo, um cenário inerte à espera de ser visto ou representado por um sujeito que se supõe exterior a ele. Propõe, em vez disso, pensar com as formas de vida vegetal e animal que nos acompanham na aventura do existir (pensar com e não apenas sobre), num gesto que retira o observador do seu pedestal e o reintegra na rede que observa. Emerge, assim, a hipótese de um conhecimento que nasce do contacto e não da distância, aquela mesma que a ciência ocidental, tantas vezes, reivindicou como condição de objetividade, como se o afastamento garantisse verdade e a intimidade a comprometesse.É esse, aliás, o sentido da noção haraweyana de «espécies companheiras»: a ideia de que nenhum ser vivo se constitui sozinho, mas sempre em relação de dependência e de troca (relação de amor) com outros organismos que o formam por dentro tanto quanto por fora — a flor com o inseto que a fecunda, o fruto com o fungo que o decompõe, o corpo humano com as bactérias que o habitam. Haraway fala, a esse propósito, de um pensar tentacular, de uma inteligência que não avança em linha reta, por dedução ou hierarquia, mas se ramifica lateralmente, tocando muitas coisas ao mesmo tempo, ligando-as sem subordiná-las umas às outras — figura que não está longe do modelo perseguido na obra de Fátima Carvalho, e que talvez explique por que razão estas duas sensibilidades, a da filósofa e a da artista, se cruzem com tanta naturalidade. Em Staying with the Trouble, Donna Haraway resume a sua posição numa fórmula lapidar: Becoming-with, not becoming, is the name of the game — “tornar-se com, não simplesmente tornar-se, eis o verdadeiro jogo”. Para Haraway, como para as imagens de Fátima Carvalho, ninguém se faz a si próprio; tudo se faz com outros, na companhia inevitável e constitutiva de outras formas de vida. A flor, que Fátima Carvalho trabalha plasticamente e Donna Haraway pensa filosoficamente, é uma presença com a sua própria agência, os seus próprios ritmos, consumando em experiência viva o que nenhuma linguagem esgota.
Esta ideia de “vida em relação” encontra, na obra de Fátima Carvalho, um eco preciso, quase programático. As suas flores e frutos não estão isolados num vazio neutral, recortados como espécimes de herbário, mortos antes de serem representados; existem sempre em relação com o ar, a luz, a humidade que os transforma diante de nós. E essa mistura contínua com o mundo é a condição da existência. Há uma passagem de uma forma para outra, dentro de um mesmo fluxo de vida, e é essa passagem, mais do que qualquer outra coisa, que a artista procura captar. O fruto não desaparece quando murcha ou apodrece: transforma-se, muda de estado, prepara já a forma que virá depois dele, ensina que o declínio não é o oposto da vida mas uma das suas modalidades necessárias. Nenhuma espécie prospera isolada: toda a sobrevivência é já colaboração; é já pacto e dívida para com outros corpos, outros ciclos, outras formas de vida que conosco partilham a espera. Pois, no fundo, como escreveu o poeta Eugénio de Andrade, todos somos boca à espera do «ardor do vento para ser ave».



