LandArt Cascais
12ª EDIÇÃO
Landart Cascais é uma exposição de arte na paisagem que tem lugar na Quinta do Pisão, Cascais, de dois em dois anos. A curadoria é de Luísa Soares de Oliveira.
Pedro Cabrita Reis
Na paisagem, uma escultura branca materializa-se como lugar do horizonte e resposta ao contorno suave das colinas. Escultura, mas também desenho e actualização do trabalho sobre o género da paisagem que este artista retoma pontual e obsessivamente no seio de um corpo de trabalho que dialoga em permanência com a História da Arte.
Susanne S. D. Themlitz
Num tanque da quinta, um ser híbrido segura uma cana de pesca cuja linha mergulha na água. A escultura refecte-se na superfície calma da água, e a linha estabelece a ligação com o desenho – e com o horizonte, em segundo plano, cuja imagem a água também nos devolve – que é basilar na obra desta escultora. As fronteiras esbatem-se, e mesmo o peculiar habitante desta paisagem transgride as fronteiras tradicionalmente atribuídas aos diversos reinos da Natureza.
O Observador Fascinado
LUÍSA SOARES DE OLIVEIRA
Em Abril de 1970, Robert Smithson, artista norte-americano que se interessava pelas transformações que objectos e matéria sofriam consoante os contextos, inaugurava, num lago salgado no meio do deserto do Utah, a Spiral Jetty. A Spiral Jetty não era unicamente uma escultura na paisagem. Era também um filme de 8 mm com o mesmo título, um texto teórico escrito pelo artista e, idealmente, todos os discursos e imagens feitos a propósito desta obra até aos dias de hoje. Até este, que estamos agora a escrever. Não se tratou provavelmente da primeira obra de Land Art. Dois anos antes, uma exposição na Dawn Gallery em Nova Iorque intitulava-se Earthworks e incluía artistas como Walter de Maria, Hans Haacke, Richard Long, Robert Morris, entre outros, além do próprio Smithson. Este, na realidade, há anos que considerava e teorizava sobre certos espaços nem edificados nem urbanos como elementos a explorar na materialização e na apresentação da obra de arte. Como tantas outras linguagens artísticas que surgem em finais da década de 60 e começos da seguinte, a Land Art não é um movimento organizado, mas a designação de obras diversas que colocam o artista na natureza, fora do atelier e também no exterior de um certo meio elitista e rarefeito em que a arte já nessa altura evoluía. E, de certo modo, continua a evoluir.
Nessa época, a Land Art, como a Performance (ou o Happening, como então se dizia), a Body Art, a Arte Conceptual e outras surgia também como o derradeiro pulsar de uma certa narrativa que colocava a inovação como requisito primeiro de validação e qualidade da obra de arte. Hoje, os tempos são outros. Esse sentimento desapareceu, e os artistas que têm exposto no ciclo Landart Cascais assumem o seu lugar na história sem sentirem a necessidade de renegar o passado. Num texto famoso, Entropy and the New Monuments, datado de 1966, Robert Smithson defendia os edifícios suburbanos das grandes metrópoles norte-americanas, sem qualidades (estéticas ou outras), como os monumentos que iriam fatalmente substituir as estátuas do passado. Ao contrário deste artista, que evoluía no interior de um paradigma mais moderno que contemporâneo, nenhum artista se acha obrigado hoje a negar o seu legado histórico. Pelo contrário: essa é uma ligação assumida, trabalhada, desejada. Como s컞 nesta 12ª edição da Landart Cascais, a exposição que, periodicamente, a Fundação D. Luís I organiza no espaço belíssimo da Quinta do Pisão, no Parque Natural de Sintra-Cascais.
Hoje, mais de 50 anos passados desde aquela obra seminal, já nenhum artista precisa de expor em contexto de paisagem para aproximar as suas obras do público não especializado. Os desafios são outros. Em primeiro lugar, a relação com o grupo desses pioneiros que primeiro considerou o espaço natural como lugar possível da obra de arte – aos nomes já referidos, é obrigatório acrescentar o do português Alberto Carneiro, escultor que participou na primeira edição do Landart Cascais em 2009. Depois, a relação que se estabelece com a paisagem e o lugar escolhido para expor. E, finalmente, a integração da obra feita especificamente para esta exposição no percurso do seu autor.
© Valter Vinagre – Landart Cascais 2026
A PROBABLE HORIZON #8
ANO: 2026 | LOCAL: Refilão, Quinta do Pisão | OCUPAÇÃO: Instalação “Site Specific”
MATERIAIS: Metal pintado, dimensões variáveis
Pedro Cabrita Reis assume-se pintor, embora a sua obra se decline também pela volumetria da escultura, pela fotografia, pelo desenho, pela instalação, pela escrita – nenhuma disciplina artística lhe é estranha, embora a interrogação de uma imagem enquadrada numa moldura (real ou imaginada) rectangular, que é a base de toda a pintura moderna, seja fundamental para entender a sua poética. Como pintor que é, assume a relação com a arte desde que ela se transformou na prática de um criador – o artista -, e com a sua história que, através do dispositivo da apropriação, actualiza periodicamente em temas, assuntos, processos, e sobretudo numa fundamentação teórica densa e consistente.
A peça que criou para esta edição da Landart, A probable horizon #8 convoca essa história da criação artística que é complexa, rica mas sempre gratificante. Trata-se de uma viga horizontal de metal com cerca de 21 metros – número que, como o artista gosta de afirmar, possui uma simbologia com ligações às ideias de perfeição e sagrado -, pintada de branco. Na sua simplicidade formal recorda as estruturas minimais norte-americanas dos anos 50 e 60 – que associamos rapidamente aos L Beams de Robert Morris, por exemplo, que condicionavam o percurso do observador pelo espaço expositivo -, tanto mais que ela estabelece uma ruptura com o caminho possível pelo denso manto vegetal que nesta época do ano cobre a colina. Mas a linha horizontal, que separa a terra do céu, é o próprio fundamento da pintura de paisagem, como a vertical o é do retrato, que se lhe opõe em tudo. Chamamos-lhe linha do horizonte.
Se pelo menos desde os romanos se pintou a natureza, a pintura de paisagem tal como hoje a conhecemos só surge muito mais tarde, pelo início do século XVI, quando um pintor veneziano de nome Giorgione decide chamá-la para tema principal da pintura. Pensamos em A Tempestade, pequeníssimo quadro exposto à entrada da Accademia da Sereníssima, onde pela primeira vez pouco nos importa o que as personagens lá fazem – é que não são elas o assunto da pintura. O género da paisagem, como captação das subtilidades da natureza no seu cromatismo e nas cambiantes de cor e luz, acompanha o domínio da ciência sobre a mesma natureza, e percorre todo o modernismo. Hoje, sobrevive como citação, já que graças a Google Maps e outros Wazes temos acesso a fidedignas imagens que deixam o campo livre à pintura para outras aventuras.
Este horizonte de Cabrita surge, pois, como uma citação da observação da paisagem. Ao contrário da antiga linha convencionada, abstracta e elusiva – quanto mais nos aproximássemos da linha do horizonte, mais ela fugiria – esta é observável, imóvel, colocada diante do raro arvoredo que coroa a colina. À sua frente, duas muito jovens árvores parecem recordar-nos a função antiga desta linha. Em suma, Cabrita Reis inverte os dados do problema, e convida-nos a deixar-nos seduzir não pela riqueza de verdes que cobrem o cenário, mas pelo artifício – a linha branca – criado por pintores para o representar.
© Valter Vinagre – Landart Cascais 2026
THE LISTENER
(passava a noite pescando ao luar, ao som da serenata de corujas e raposas,
e de tempos em tempos ouvindo ali perto o canto chiado de algum pássaro desconhecido)
ANO 2026 | LOCAL Junto da Casa da Cal, Quinta do Pisão | OCUPAÇÃO Instalação “Site Specific”
MATERIAIS Tinta sobre fibra de vidro e poliéster, cana, fio de pesca, chumbo, galochas e roupa, dimensões variáveis
Nota: “The Listener” a partir de „O Pescador“ de Goethe, em inglês para ser qualquer gênero
– e o resto a partir do capítulo “Os lagos“ de Henry David Thoreau.
Susanne Themlitz criou uma peça muito diferente. Num tanque de alvenaria, repleto de água para saciar a sede de animais e plantas, colocou um estranho ser híbrido -meio burro, meio humano –, sentado na margem, segurando uma cana de pesca na mão. A Quinta do Pisão funciona também como refúgio e abrigo para animais – cavalos, burros e rebanhos de ovinos – e foi ao observá-los que teve a ideia de base para a sua escultura. Themlitz define-se de facto como escultora, mas interessam-na também as transformações dos objectos em contexto expositivo, os dispositivos – bolas de cristal, lupas, óculos e outros – que alteram a percepção do mundo e, entre outros, as possibilidades poéticas da transmutação dos seres. The Listener, o nome que deu a esta obra, congrega todos estes interesses e muitos mais.
Como subtítulo, Themlitz cita Goethe e Thoreau, e diz-nos que “passava a noite pescando ao luar, ao som da serenata de corujas e raposas, e de tempos a tempos ouvindo ali perto o canto chiado de algum pássaro desconhecido.” Goethe, o grande poeta romântico alemão, e Thoreau, referência inexcedível para o regresso á natureza do Novo Mundo utopicamente impoluta, abrem a porta a uma consideração romântica da paisagem que, ao contrário do que sucedia em épocas anteriores, é agora o veículo para a descoberta de sensações desconhecidas pelo viajante / observador, muito mais do que uma vista pitoresca digna de ser observada. Este caminho teve início bem antes; mas é de facto com o Romantismo que ele atinge a sua teorização mais precisa e eficaz.
The Listener, aquele que ouve (mais do que vê) e que nos deixa ver (mais do que ouvir) é um ser em transformação. Não apenas porque, tendo a aparência animal, se veste como humano (e a artista conta-nos que são suas as roupas que ele enverga), mas porque, passando a noite ao luar, se enriquecerá com as serenatas e os cantos chiados dos animais. E nos transforma a nós também, os observadores: há uma sedução irreprimível no olhar hipnotizado pela recta da linha reflectida na água do tanque – distante evocação do desenho, outra das práticas de Susanne Themlitz – alterado pela refracção da luz e pelo ondular da superfície líquida provocado pela passagem dos patos que aqui elegeram morada. The Listener, por fim, deixa-nos ver a paisagem circundante e a sua alteração em simetria: qual Narciso (mas um Narciso onde não falta o sentido de humor), vê-se imóvel no espelho de água, rodeado pelas colinas, a vegetação, as nuvens que passam no céu. A volumetria da paisagem torna-se imagem bidimensional. Como a da pintura ou a da fotografia.
Somos observadores permanentemente fascinados.
Luísa Soares de Oliveira
Maio de 2026
LANDART CASCAIS
12ª Edição




