Casa Arrumada
Ema M
Casa Arrumada
Pode ler-se, num primeiro momento, como uma apropriação pictórica do espaço que envolve e extravasa a própria pintura. A série de pequenas telas, representando cada uma a estilização de uma habitação, joga, pelas suas constituição e distribuição, com o espaço que lhe é exterior, a parede e que assim devém rua, cruzamento, praça, sendo deglutida tacitamente pela disposição pictórica das casas. Hábil jogo da pintura que capta o que lhe é exterior: o próprio suporte.
Apreendida como cartografia de uma vila, Cascais, Casa Arrumada pode ler-se também como um abecedário, na medida em que a sucessão aleatória e convencional das casas remete para a ideia de unidade mínima e de sequencialidade. O suporte alfabético, mesmo estando ausente, atravessa vários dos núcleos expostos, convidando a associar-se constantemente ao visível o legível. Trata-se, antes de mais, de «matéria gráfica», na medida em que ela integra, no mesmo jogo, no mesmo olhar, como refere Anne-Marie Christin para os abecedários, «espaços vazios e traços», a sucessividade aliada à descontinuidade. Ora a introdução da descontinuidade na paisagem – contínua por definição – só é possível pela aplicação do sistema alfabético de escrita à imagem pictórica, como acontece neste caso. E, consequentemente, a parede converte-se na página em branco que o livro e o caderno formatam em rectângulo. O mesmo princípio aplicado às casas é usado para a flora e fauna que envolvem o espaço urbano. Eis um outro livro donde o humano foi, subtilmente, apartado.
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