|
O que fica do que se vê
Com uma persistência assinalável, Rogério Tunes aprofunda o seu trabalho de experimentação cromática, mostrando nesta sua mais recente fase uma tranquilidade que só a maturidade permite alcançar. As cores movimentam-se com uma alegria que nos contagia e misturam-se sem medos ou preconceitos, mostrando-se aos nossos olhos com uma sinceridade que é bem o retrato do pintor que lhes dá ordem e sentido. É, verdadeiramente, uma viagem que exige sentidos bem atentos pois, cada paragem do olhar nos quadros expostos, encontra novos enigmas e novos encantamentos. No que parece ser mera aleatoriedade expositiva do traço, há um trabalho profundo de escolha e opções que se transmitem, em verdadeiro fulgor, nas sucessivas camadas de cores que se estabilizam, por fim, seguras do sentido que quiseram assegurar. Despertos, vamos saltando o olhar pelas imagens simples e diretas que nos são propostas e vamos reconstruindo novos mundos naquela paleta de cores deslumbrantes. Não resistimos às impressivas tonalidades fortes e irradiantes. A qualidade da cor evidencia, sem temor, o brilho das experiências das várias misturas ensaiadas até ao aperfeiçoamento final. São novos trajetos que percorremos, encontrando, nos vários níveis de significantes, diferentes signos suficientemente autonomizados e expressos em áreas distintas de cada quadro, trazendo variadas narrativas ao ensaio pictórico. Rogério Tunes, vem alcançando um prestigio artístico assinalável em Portugal e um reconhecimento que já obtivera antes no Brasil, seu país de origem, a que esta exposição no Centro Cultural de Cascais, local de créditos e prestígio cultural singular e de notória dimensão nacional e internacional, vem acrescentar uma notoriedade que os seus trabalhos mereciam e a todos, artista e seguidores da sua obra orgulha e emociona. Neste pequeno texto de apresentação e apreço pela obra exposta, não pretendo universalizar o meu gosto pelo contemporâneo nem impô-lo numa atitude de infantil jactância, mas apenas desvendar alguns sinais que a pintura de Rogério Tunes encerra e que são, notoriamente, o resultado do seu olhar sobre um lugar que lhe alimenta a alma e os sentidos, dando uma nova dimensão ao seu percurso artístico. Cascais, a sua luz e a variedade das tonalidades que o mar lhe oferece diariamente, são influências que o artista salienta e evidencia e, de forma marcante, dão novo rumo à sua pintura. Olhar os quadros desta exposição é um trabalho de grande gozo sensorial, mas também um processo de decifração que nos envolve e se mantem para além de uma primeira visita. É algo que fica para deleite do nosso sentido estético, que não se esgota numa primeira passagem pela obra exposta e que os nossos olhos retêm em busca do significado dos sinais que fomos encontrando e nos deixaram surpreendidos e ansiosos de lhes encontrar o sentido. Mas sem esquecer que "O sentido de um signo é sempre esclarecido por outro signo que de algum modo o interpreta "(Umberto Eco, "Aos ombros de Gigantes "). A decisão assumida de organizar na Galeria da Fundação D. Luis I esta exposição em torno do trabalho mais recente de Rogério Tunes, constitui uma enorme oportunidade para a afirmação do artista em terras lusas e deixa a marca de um estilo e orientação de uma instituição que se vem engrandecendo, singularmente, pela abertura demonstrada à apresentação das mais recentes experiências visuais contemporâneas. A obra hoje apresentada, afirma-se pela qualidade da cor, mas também pela assinalável experimentação da sua composição em exercícios de grande liberdade e consistência. O resultado é uma sucessão de quadros de grande fulgor cromático que não nos deixa indiferentes. Não tive, nesta breve e despretensiosa apresentação da exposição de Rogério Tunes, a pretensão de explicar, esclarecer ou sequer orientar uma visita pelo que nos é dado a ver, mas tão só dar conta da forte impressão que o trabalho nos causou. Cada um dos visitantes desta exposição é, pois, convidado, a encontrar e desvendar os sinais mais intensos que o autor lhe faz chegar, sentir a emoção de uma cor que permanece para além do primeiro olhar, a contemplar o céu e o mar deste singular e único lugar que é Cascais, com os novos sinais que o artista lhe soube acrescentar. Uma certa perplexidade inicial, dá lugar a uma serena meditação sobre o lugar, a obra e o artista que fica para além do que se vê.
José Luís Forte
Sem Título | Acrílico sobre tela | (6X)70x90 cm
Rogerio Tunes nasceu no Rio de Janeiro e atualmente, como Luso-Brasileiro, montou atelier em Cascais, onde vive desde 2015. Na década de 80 passa um período em Nova Iorque onde o contacto com a arte americana terá uma influência enorme na sua produção. Forma-se em design gráfico. Na década de 90 monta atelier de serigrafia onde o contacto diário com tintas e cores o leva a novas experimentações; passa a interagir com outros artistas frequentando ateliês deles. Em 2000 passa a dedicar-se exclusivamente às artes plásticas começando a expor em diversas galerias no Rio de Janeiro onde vê o seu trabalho reconhecido por marchands e colecionadores. Faz exposições no Brasil, nos Estados Unidos da América, na Argentina e na Europa. Em 2009 passa uma temporada de 6 meses na França, nomeadamente em Nice, onde teve a oportunidade de expor e também em Mónaco, Itália, e agora, em Portugal. Exposições:
|






















