755 EGO

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EGO - CRISTINA TROUFA


Inaugura a 19 de julho e termina a 15 de setembro 2019

 

 

EGO por Cristina Troufa

 

Porque a verdade é que fui eu próprio que deixei a casa dos sábios, batendo com a porta atrás de mim.
Demasiado tempo esteve a minha alma faminta sentada à sua mesa; eu não sou feito como eles para petiscar o Conhecimento como quem parte nozes.
Amo a liberdade e o vento que corre sobre a gleba fresca; gosto ainda mais de dormir em cima de peles de bois do que sobre as suas honrarias e das suas dignidades.
Sou demasiado ardente, demasiado consumido pelos meus próprios pensamentos, falta-me muitas vezes a respiração. Então preciso de sair para o ar livre, longe de todos os compartimentos empoeirados.

Na História da Arte multiplicam-se os artistas que trabalharam a autorrepresentação e o autorretrato. Poucos foram, contudo, aqueles que transformaram o seu corpo na sua obra, propondo-nos uma reflexão sobre a multiplicidade das coisas que somos, simultaneamente e ao longo da vida, e questionando-nos sobre qual o espaço de verdade existente na imagem. Cristina Troufa (Porto, Portugal, 1974)é sempre o foco da sua própria pintura, alargando-nos o ponto de fuga para uma ideia mais abrangente da Mulher, das suas forças, fraquezas, tentações, misticismos, dúvidas e delitos. O trabalho da artista, parafraseando-a, é "algo espiritual, uma viagem entre várias vidas e diferentes estágios no tempo, na mesma vida, coexistindo lado a lado, através de estratégias de autorrepresentação que, no limite, questionam o sentido da vida. O meu trabalho é sobre a minha vida, sobre mim e sobre as minhas crenças." Quem pinta, quem escreve, tende, em algum momento, a surrealizar-se, a sair em busca dos espaços de automatismo psíquico que nos permitem uma aproximação ao subconsciente e, porque não, à verdade, pelo menos à verdade de nós mesmos, sem medos, amarras ou indefinições genéricas. Vivemos num tempo e num espaço societário em que é proibido sofrer, em que somos incentivados ao anti sentimento, à ausência da fragilidade. O tempo da analgésico-dependência. Não importa perceber os porquês e as causas, apenas anular as consequências imediatas, camuflar. Cair é proibido, falhar é alvo de todas as recriminações. Chorar é histeria, gritar é atentado ao pudor. Melhor sufocar, conter, não pensar, não refletir, fingir. Gonçalo M. Tavares (n.1970) designa o epifenómeno como "patologia intelectual" e sintetiza:

Entre a ausência de dor e a inteligência, o ser humano, o ser racional por excelência, o ser das invenções, da filosofia, da arte, da tecnologia, optaria, provavelmente, arriscamos, pela ausência de dor. Em suma – e esta é uma das sínteses essenciais – provavelmente, no Homem, o medo da dor suplanta o medo da estupidez.

Na autorrepresentação de Cristina Troufa não sentimos o medo da dor ou da exposição das fraquezas. Deparamo-nos com a inteligência e a crueza dos sentidos, com a agressividade e a doçura das expressões, com a violência e a candura dos gestos, com o erotismo e o pudor dos corpos. Por vezes, Cristina multiplica-se, como numa sucessão de frames, criando-nos a ilusão de movimento, em composições predominantemente triangulares e de estilo clássico, por vezes barroquizadas nas iminências do claro-escuro que nasce do proveito do suporte, policromado em plano ou na utilização das suas características naturais, tela ou papel, a partir do qual se desenrola a figuração. Com uma paleta eminentemente pop, ainda que com variações de luz mais intensas, Cristina Troufa revela-se no exercício da cor plana, estando parte da originalidade do seu trabalho na forma como a figura brota da base, num jogo do dentro para fora, conceptualmente aprisionando corpo e alma e, ao mesmo tempo, colocando o clamor da libertação em cada olhar. Em EGO apresentam-se um conjunto de trabalhos produzidos ao longo dos últimos quatro anos, a que soma uma instalação com borboletas feitas em origami. O processo parte, regra geral, da fotografia que Cristina prepara e executa. A pintura tem, assim, pré-existência na performance, se quisermos. A partir daí, Cristina explora a combinação de posições e expressões até partir para o exercício da pintura, com uma base forte no desenho, daí a sua evidência nesta exposição, permitindo aos públicos mergulhar nos jeitos e nos talentos da artista. Como Robert Sabatier (1923-2012), Cristina habita "um provérbio tão vasto que era preciso um universo para enchê-lo" , é uma sonhadora de devaneios e de cosmos que recorre à vida quotidiana para expurgar inquietações e vertigens, é a autora da sua própria solidão, um ser que se abre a partir do mundo, o interior e o exterior.

De repente ele se faz sonhador do mundo. Abre-se para o mundo e o mundo se abre para ele. Nunca teremos visto bem o mundo se não tivermos sonhado aquilo que víamos. Num devaneio de solidão, que aumenta a solidão do sonhador, duas profundezas se conjugam, repercutem-se em ecos que vão da profundeza do ser do mundo a uma profundeza do ser do sonhador. O tempo já não tem ontem nem amanhã. O tempo é submergido na dupla profundeza do sonhador e do mundo.

Cristina Troufa faz uma afirmação da sua temática a partir do seu próprio eu, do seu EGO, colocando o seu corpo e o seu objeto de estudo para além dos limites da disrupção. As suas mulheres, ainda que sempre Cristina, representam as sonhadoras do mundo, afetam-se a todas as tarefas, atividades e eloquências. Corrompem e provocam o olhar, não de quem vê, mas que quem sente e se incomoda com o que vê.

Como Nietzsche (1844-1900), Cristina Troufa ama a Liberdade e combate a autocensura que a sociedade lhe impõe enquanto mulher. Obriga-nos a olhar para ela e, através dela, mirarmos o nosso instante de verdade, o que omitimos ao esconder a dor, a falha e a perda. Por isso, EGO não é apenas Cristina, mas o feminino existente em cada um de nós.

Helena Mendes Pereira

 

755 ARMOR Acrilico sobre linho 150x100 2015 CristinaTroufa

ARMOR_Acrilico sobre linho_150x100_2015

 


 

Cristina Troufa (1974) obtém em 1998 a Licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto e em 2012 conclui o Mestrado em Pintura na mesma faculdade, onde actualmente também é professora num curso de formação contínua. Desde 1995 que participa em exposições colectivas e individuais em Portugal, Itália, Espanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, Taiwan, França, Inglaterra e EUA. É referenciada e entrevistada em vários meios de comunicação social em Portugal e internacionalmente. Em 2015 foi membro de júri no projecto "PortugArt" em Londres, na selecção de artistas portugueses para uma exposição colectiva na mesma cidade e na qual foi artista convidada. Os seus trabalhos têm sido escolhidos para ilustrar capas de livros, tais como "The Houses of Others" de Deakla Keydar, Israel ou integrar o guia de estudantes na Nova Zelândia em Student Art Guide – Sketchbook Publication. Em 2011 obteve uma bolsa da FADEUP em cooperação com a Fundação Calouste Gulbenkian. A sua obra está presente nas colecções de arte da Liberty Seguros, Museu Municipal de Espinho, FBAUP, FADEUP e MAEDS.