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755 RUI MATOS

 

» Sala do Piso 1


RUI MATOS - Através da Superfície

8 de fevereiro a 7 de abril

 

Pela superfície de um corpo sentimos toda a sua tensão interior. Pela linha projectamos e definimos o espaço que habitamos.
Cada escultura é a construção de um novo ser que me foi devolvido pela transformação que a memória em mim sofreu.
Depois cabe ao espectador o desejo de tornar seu este novo ser e dar acabamento à forma que lhe é própria.

 

 

 

 

 

Através da Superfície

 

O corpo que percebe não ocupa alternadamente
diferentes pontos de vista sob o olhar de uma
consciência sem lugar que os pensa.
Merleau-Ponty (1999). p. 441

 

 

Seguindo o pensamento de Merleau-Ponty, não contemplamos apenas a obra de arte, enquanto objeto estético, mas sim vivenciamos a impressão do olhar, cujo «corpo-espectador» capta e reconhece o seu próprio movimento no espaço, na possibilidade de expandir a sua perceção sensorial do mundo.

 

Através da Superfície, de Rui Matos, os «corpos escultóricos» movem-se no ambiente, criando uma singular presença, em contraponto com as variações de linhas e formas, numa linguagem plástica do Universo.
Numa escrita sem narrativa, o espectador testemunha o intervalo de espaço-tempo através do delicado gesto que modela as formas e o movimento, cujo lugar nelas habita. Sentimos o tempo, o silêncio e o vazio, bem como a forma e a linha, a superfície e o espaço, a cor e a «não-cor». Assim, o espectador caminha por três salas num encontro entre uma experiência antropológica e fenomenológica.

 

Rui Matos apresenta uma viagem às origens da linguagem visual e da escultura. No espaço, a matéria e a forma são trabalhadas de modo a acentuar a minúcia dos pequenos detalhes, transmitindo-os em linhas e superfícies delicadas e orgânicas.

 

A matéria, enquanto ferro, com ou sem cor, comunica com o observador. Num compromisso de constante diálogo entre sujeito e objeto, ser e obra, Rui Matos remete-nos para uma experiência do lugar e do objeto como um campo de sistemas e de «signos escultóricos». Apresenta a obra plástica como uma pré-linguagem, a não-palavra. Devolve-nos, enquanto sujeitos, o retorno às origens da sensação e do pensamento em «imagens-primordiais» como formas de um sistema linguístico. Tal como argumenta Lévi-Strauss (1974, p. 114) : «Le choix du signe peut être arbitraire, celui-ci conserve tout de même une valeur propre, un contenu indépendant qui se combine avec la fonction signifiante pour la moduler.»

 

O escultor projeta-nos para uma outra dimensão, cujo tempo e movimento transmitem estranheza ao ser, na contemporaneidade. O artista transforma a matéria-dura, através de um gesto subtil e depurado.
Quase numa contemplação meditativa das formas, evidenciando-as como seres suspensos no espaço. Todavia, estas formas provocam no espectador «tensões interiores», que nos leva à discussão sobre a experiência do silêncio e do vazio.

 

Nesta exposição, observa-se a renúncia da palavra, do peso e da massa da escultura, como atos meditativos in situ, numa analogia à fusão da natureza com o ser humano. A dicotomia entre ausência e exaltação da cor, entre a escala do pequeno e do grande, reflete a aparência do significado da escultura na contemporaneidade. Relembramos, assim, Rosalind Krauss (2001, p. 280): «It causes us to meditate on a knowledge of ourselves that is formed by looking outward toward the responses of others as they look back at us. It is a metaphor of the self as it is known
through its appearance to other».

 

Nas três salas, experienciamos uma variedade de sensações determinadas pelas memórias transformadas pelo escultor. Tal como afirma Rui Matos (2019): «Cada escultura é a construção de um novo ser que me foi devolvido pela transformação que a memória em mim sofreu.» Numa espécie de reivindicação à sociedade contemporânea, presenciamos os indícios do inconsciente coletivo e individual, enquanto ser criador de linguagens. A não-palavra e o silêncio despertam no ser uma experiência sensorial do conhecimento, através
das «imagens-signos» arquitetadas no espaço.

 

Quando entramos na exposição, contemplamos o crepúsculo das formas brancas que pairam no espaço cinza, como seres voláteis e inconstantes, formas que se libertam do seu estado gravítico, como verificamos nas obras Voláteis e inconstantes, Na ocasião propicia e Tornou-se próximo e nítido. Ficamos, assim, suspensos no tempo.

 

Viajamos através das formas. Também pela cor. Numa memória ancestral da escultura, a cor acentua o gesto delicado do toque, como impossibilidade de o objeto se apresentar apenas num único aspeto. Vislumbramos, deste modo, um jogo dicotómico da escala, onde o pequeno contradiz o grande. Intuímos a ironia, uma surpresa do non-sense [Lugar, Casa Azul e Belisca-me].

 

Todavia, nestas esculturas, cruzam-se metalinguagens numa experiência multidimensional. As formas desvelam a ausência da massa escultórica, de modo a serem delineadas pelas superfícies. O «corpo escultórico» assume a sua «pele», em detrimento da incorporalidade da massa, como nas obras por dentro e por dentro dois momentos. Através da superfície 1, 2 e 3, Rui Matos enaltece a linha fronteiriça entre dois mundos. Num olhar impercetível sobre o indizível.

 

Sentimos a experiência sensorial numa dicotomia entre mistério e evidência, que afloram nas esculturas, tal como acontece na natureza. Por isso, recordamos que «Le mystère et l'évidence son un, et c'est le monde. Mystère de l'être: lumière de l'être. (Comte-Sponville, 2008, p. 172).

 

Joana Consiglieri
Lisboa, janeiro de 2019

 

 

 755 retrato IMG 5061

 

Rui Matos, nasce em Lisboa em 1959. Vive e trabalha próximo de Sintra. Nos anos 80 frequentou o Curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em 1993. Em 1987 realiza a primeira exposição individual "Órgãos e Artefactos" em Lisboa com esculturas em ardósia. Segue-se "Primeira Ilha" e "Mediterrâneo" no Porto com esculturas em gesso-bronze. A primeira exposição em pedra é de 1991 "Enormidade Sequência e Naufrágio" a que se segue "Transformações-Relatos Incertos", "Objectos de Memória" e "Histórias Incompletas". Em 2008 começa a trabalhar em ferro com as exposições "A Pele das Coisas" em Lisboa no Teatro Camões, "Transformo-me naquilo que toco " na Giefarte , "Por Dentro" na Fundação das Comunicações, " O tempo, os lugares, a memória, a fortuna dos dias" no MU.SA em Sintra, "Transmutações" na Sá da Costa em Lisboa, "Histórias de outras Idades" no Convento do Espirito Santo em Loulé, "Perdido na viagem de regresso" Paços Galeria Municipal de Torres Vedras. Realizou esculturas públicas em Chaves, Durbac (Alemanha), Aveiro, Lisboa, Cascais, Oeiras, Caldas da Rainha, Vila Franca de Xira, Alfândega da Fé, São Pedro do Sul, Belver, Portalegre, Almada, Seixal e Vila nova de Gaia. Coleções: Caixa Geral de Depósitos, Museu Dr. Santos Rocha, Fundação PLMJ.

 

 

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