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SÍNTESE DE UM LUGAR


Quando há quatro ou cinco anos visitei a aldeia do Bustelo da Laje, e a casa e a oficina do Vitor Pi, suponho ter compreendido que aí me encontrava com um "mundo" muito especial: aquele era um lugar, digamos, de iniciação panteísta e de inevitável percepção poética da Natureza, numa esfera que gerava Sonho – um ambiente transfiguracional de penedias zonadas e delicados vergéis, tudo próprio à motivação criativa de um artista cuja seiva expressiva emergia sobremaneira duma visão paradigmática de "Terra" – Terra na sua realidade física e nos seus ciclos génicos, mas também nas marcas, próximas ou distantes e imemoriais, de uma profunda e fecunda vivência humana! Vitor Pi dizia-me então que aquele era o seu alfobre afectivo e espiritual, a base do seu diálogo com o Todo, a "substância" sensível que o fazia vencer o mecanicismo, tantas vezes redutor e desumanizante, dos nossos dias. Ali o artista mergulhava na corrente límpida de formas e matérias essenciais, na riqueza orgânica que sua obra tão intensamente mostra e de que exponencialmente se reclama.

 

 

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NOTAÇÃO MÍNIMA SOBRE O TEMA "TERRA"


A montanha de Montemuro é um espantoso monumento geológico. Há ali uma força diríamos que diagénica e metamórfica extraordinária: penedos zonados de uma ancestralidade que nos faz pensar na intemporalidade do próprio tempo... O Rio Bestança correndo, impoluto, serra abaixo até ao Douro, beija no seu curso reverdentes lameiros, moinhos-de-água supravitais, margens com eternas casas graníticas que são repositórios de memória sabe-se lá de que sonhos de fecundidade e colheitas!... Um ambiente de aprofundamento até às raízes, tanto quanto de elevação a uma percepção universal das coisas e dos seres!
Esta procura pluridimensional, e simultaneamente unitária, da realidade do Mundo em mundos, confere à obra de Vitor Pi um carácter fortemente objectual, em função de elementos e artefactos achados pelo artista nas suas deambulações e por ele recolhidos para eventualmente fazerem parte de suas composições. Aí os descobriremos como portadores de uma mensagem de perenidade existencial. Fora de plasticismo por mero plasticismo (que o artista confessamente não procura nem cultiva) percorremos-lhe fases ou momentos de arte de ambiência densa, de contenção cromática, áspera de arenitos compactados, ou suave de superfícies desenhadas, tudo de forte pendor simbólico ou evocativo, em que coexistem algumas formas escultóricas ou de assemblage transfiguracional quase "mágica". Tais recursos patenteiam-se ao nível da grande sinceridade expressiva com que Vitor Pi trata aspectos e forças que se lhe impõem nos campos do Afecto Humano e da Verdade Telúrica em sentido lato. É nesta ordem de ideias que "lemos" e valorizamos o que há de físico ou sinalético nos quadros do tema "Terra", os quais constituem um magistral conjunto de realização e comunicação estéticas. Naqueles se reflecte um desejo de comunhão do homem com mananciais VIVOS e VIVIFICANTES da Natureza. Natureza captada em suas pulsões metabólicas, não espartilhadas por "filtros" conceptuais, mas sempre em estado maternal, qual útero imenso e generoso a refazer em si, ininterruptamente, todos os poderes germinativos e todos os substratos sobre os quais a arte de Vitor Pi actua e se desenvolve. Assim, eis a "Terra" fenomenal e nua! – musgos, líquenes, bolbos que beberam sua nutrição de solos por vezes agredidos por contingências espúrias mas que chegaram à apoteose da frutificação; e seixos rolados por leitos fluviais, sabedores de milenares cânticos de sóis e madrugadas... E resíduos de espigueiros, e de velhos muros que inda bordejam destinos prospectivos. E argilas em que o artista imprime as mãos como quem dá uma carícia a Gaia. E asas, ou apenas rémiges, provindas de aves que conheceram voo livre até tombarem, algures, talvez no auge da construção de mais um ninho! – E o próprio ninho mostrado no quadro como indício de crias que terão vingado... E alfaias mundividentes de mil leivas amanhadas. E bosta, bosta da "Bonita", matéria eleita e sublimada pelo artista para com ela moldar suas míticas e aqui mostradas máscaras! E ainda fotos, várias, indo até um políptico em que há imagens de peças osteológicas do "pai", há muito consubstanciado com as Terras de Muro! Tudo isto nos é mostrado em espírito de celebração e sagração, servindo um pensamento criativo amadurecido pela contemplação de ritmos sémicos essenciais. "Terra" tratada emocional e eticamente de modo que se opõe a tudo o que não seja Simbiose e Harmonia! Talvez o que Gaston Bachelard chamou de "espaço poético" seja aquele em que o artista está por inerência de sua condição de inquiridor de "milagres", ou seja, de perscrutador da complacente Maravilha que nos envolve e desta bondosa ontologia cósmica que há no chão que pisamos!

 

Hugo Beja
Junho,2018

 

 
 

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