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VICTOR BELÉM

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A irreverência, a expressividade e a modernidade da obra de Victor Belém colocam-no entre os artistas que, de uma forma ou de outra, se distinguiram no panorama das artes plásticas da segunda metade do século XX e princípio do século XXI. Aos 20 anos expôs pela primeira vez, em 1958, e não se limitou a uma disciplina artística. Durante mais de cinquenta anos criou instalações, pintura, vídeos ou fotoficções (assim se referia V. Belém às fotografias que encenava com modelos), deixando um acervo invejável em quantidade e qualidade. Por isso, orgulhamo-nos da obra deste artista, que nasceu e morreu em Cascais. Mais nos orgulhamos desde o dia em que Victor Belém e a sua família decidiram doar grande parte desse legado à Câmara Municipal de Cascais. São obras desse espólio que agora mostramos em dois pisos do Centro Cultural de Cascais.

A exposição Pintar é uma maneira de pensar, como dizia o artista, realça a diversidade criativa e a visão futurista deste criador, que se deixou levar pelas formas, pela cor, pelas texturas, pela experimentação, tudo condimentado por um sentido de humor muito próprio. Victor Belém está representado em diversas coleções particulares e museus, em Portugal e no estrangeiro. Mas foi a Cascais que, como referimos, quis deixar grande parte do seu legado, sublinhando com este generoso gesto o amor que sentia pela sua terra. Termino agradecendo aos seus familiares por esta honra.

 

Carlos Carreiras

Presidente da Câmara Municipal de Cascais
 
 
 
 
VICTOR BELÉM | UMA PASSAGEM PARA O MUNDO

O mundo não se determina por fora do nosso olhar em vida, sob o entendimento das artes que o tornam visível. Entre o sonho e o espaço, este pintor nascido em 1938, no interior de Cascais, foi crescendo depois da infância para essa área dos estudos artísticos que sempre foi a Escola António Arroio, instituição votada às técnicas das artes e aos temas de expressão em mudança através da história.
Com uma bolsa de estudo concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian, aquele rapaz poderia (e assim o revelou) desenvolver a sua tendência para a cultura das artes, cuidar dos apelos que já o povoavam, realidade que foi assim seguida e apoiada pelo pintor Júlio Pomar, artista que bem lhe incutiu o sentido dos meios e das formas, especialmente na pintura, bem como o apuramento da capacidade técnica e um decisivo apelo criador.
Mesmo nesse tempo de aprendizagem dos meios para representar o visível ou reinventar outras dimensões do seu mundo interior, já Victor Belém aspirava a um mundo de devaneios imprecisos. Não pensava em congelar fórmulas e formas no seu imaginário, escolas e estilos. Tudo isso passou bem depressa, no rodopio da polémica, para o espaço de uma aventura que combinaria as coisas e as culturas, tanto no domínio da acentuação entre o modo de percepcionar a realidade, como apurando o trajecto entre o olhar e o ver.
Nos anos 60-70, que podemos considerar como a fase iniciadora de todo o percurso deste pintor, as representações de figuras imaginadas na margem, como a mulher de pé ao lado do companheiro, a avó sentada à frente com o neto ao colo, são imagens que relembram um neo-realismo começado, feito de cores baças, interiores da alma magoada por um mundo de carências. É nesta opção que se reinventa a vida de pescadores e peregrinos. Além desta versão do tema surge uma outra, em que o modo de fazer é mais agressivo, aponta para o grito e não para a espera da bondade divina. Um tom expressionista agarra de perto toda essa fase, como "Três Figuras no Jardim", "Discussão na Praça" e o "Casal", obras dos anos 60 e trabalhadas com grande força, reveladas, escondidas, espessas, sombrias, insinuando uma descrença no que os impressionistas iluminavam com um optimismo de frescura.
Além da ciência operativa (práticas e invenções), Victor Belém muito valorizou no discurso da arte a ideia do humor. Foi também sarcástico nas instalações provocatórias ou nas fases performativas, assinando assim rupturas com as tradições modernistas, a contornar de forma porventura inesperada o lado dos génios nacionais e estrangeiros. Não terá sido fácil, com tantos olhos invejosos em volta, ignorar as bandeiras do sucesso e avaliar outros meios de registar a realidade dinâmica, tanto pela fotografia como pelo vídeo, calculando que as supremas glórias da envolvência afinal provinciana o obrigariam a pedir aos amigos que gravassem na tumba a si calhada, os caracteres da sua verdade.
O trabalho deste pintor passou assim por várias disciplinas artísticas, reinventando-as lateralmente tais como a própria pintura, a escultura, a escultura-instalação, a gravura, a serigrafia, a abordagem do registo fílmico, o vídeo, a fotografia em séries mágicas e poéticas, com Fernando Pessoa ou os mitos dos desastres principais do século XX. A poesia de Pessoa surge numa sequência inolvidável, prolonga-se no domínio das suas autoridades heteronímicas, cola-se ao palco do mundo e dos tempos. Ao encenar, na escassez dimensional do seu atelier, uma peça de teatro expressionista ("Maternidade"), Victor tentou a gravação ao vivo, mas os meios falharam. Seja como for, no saber e no domínio das formas tudo se reinventou, pela fotografia, pelos meios digitais, até ao ponto em que as sequências imagísticas resultaram fortes e belíssimas.
Como artista plástico, ao libertar-se de muitas das certezas anteriores, Victor Belém parece ter abarcado quase todo o século XX, dando a ver a possibilidade das globalizações aprisionantes. Em boa verdade, e apesar desta referência ser de brevidade inamovível, é importante referir que Victor Belém, a partir do ano 2000, em torno de "Fadas e Elfos", "Barcos e Piratas", "Aparições e Mutantes", entra pelo interior de um paraíso perdido, abordando a materialidade dos seres que sustentam a própria Natureza e assistem à ordem das mudanças assumidas pelo Homem.
Pouco depois de 2004, o artista abraça ritmicamente, de um modo inusitado, séries de pinturas de carácter gestual, como que num desafio a muitas insistências da crítica nos anos 60, o primórdio da arte abstracta. Tais obras foram expostas na Galeria Fonseca Macedo e mais tarde na Galeria Artela, em Lisboa. No entanto, podemos citar, desde 1975, criações como "Paisagem em Sombra", "Homenagem a Voltaire I e II", em 1976. Composições abstractas, dinâmicas, primeiro, mais lineares depois – espécie de uma ordem pensante. As oscilações e o grito aparecem então na obra deste autor de forma invulgar, num intenso recorte expressivo, desde os nomes à denúncia avassaladora: quando se escreve "é proibido pensar", é preciso saber o que se escreve, e então o ser pensa no "Monstro Autofágico" ou na "Menina Robótica enquanto Jovem", títulos que são uma crítica aos casos recorrentes dos "sem título", como se as imagens, todas elas, nada tivessem a ver com a infinita visibilidade da literatura.

Rocha de Sousa, Victor Belém – Uma passagem para o Mundo, Maio, 2018

 

 

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