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Birmânia

Momentos plasmados no Tempo

 

Este país mágico fascinou-me desde a primeira vez em que pisei o seu solo, no início dos anos 90. Nesses tempos, a Birmânia (Myanmar) era um país bastante isolado do resto do mundo. Contudo, as raras pessoas que nele se aventuravam usufruíam de uma experiência incomparável... um espaço de beleza cativante, um encontro com um país ancestral que permanecia, em muitos aspetos, suspenso no tempo - uma complexa tapeçaria elaborada ao longo de séculos em que a história se funde com a tradição cultural.

 

Logo que se iniciava a descida para o aeroporto de Yangon, pressentia-se que a Birmânia era diferente de outros lugares. Da janela do avião avistava-se o céu impregnado de um vago tom róseo que revelava a paisagem como que através de um filtro, com um matiz semelhante à das primeiras fotografias em tons sépia.

 

No exterior do terminal, o calor abrasador que nos envolvia era palpável. Viam-se mulheres idosas sentadas, com os rostos e mãos cobertos de thanaka (uma pasta de casca de árvore muita usada pelas mulheres birmanesas como cosmético e protetor solar), a enrolar e a fumar charutos cortados em ambas as pontas. Adequadamente colocado por cima das suas cabeças, um cartaz dava as boas vindas a Yangon e anunciava: "Aprecie os charutos da Birmânia".

 

Fora-nos atribuído um dos poucos veículos existentes à época, que nos aguardava à chegada. Pouco depois circulávamos cautelosamente pelos carreiros de terra batida com um empedrado irregular, que serviam de estrada para o centro da cidade e, à medida que os pneus giravam no solo argiloso vermelho, a mancha sépia acentuava-se. Entretanto, o sol começara a pôr-se e o cair da noite prenunciava alguma frescura, originando uma diáfana neblina argêntea que pairava tenuemente acima do nível do solo. Esta luminosidade etérea aumentava ainda mais a natureza predominantemente onírica da paisagem, proporcionando-nos a sensação de penetrarmos numa outra dimensão. Em breve ficaria a saber que nos deparamos frequentemente, por todo o país, com paisagens de apreciável contexto fantasmagórico. No âmbito destes parâmetros inspiradores, torna-se facilmente compreensível que um tesouro de lendas fantásticas e outras parábolas birmanesas tenha emergido e florescido ao longo dos séculos.

 

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Time, Reverance and Merit

 

A minha primeira viagem à Birmânia aflorou apenas as camadas exteriores deste país místico, aguçando a minha curiosidade para continuar a desvendar os mistérios desta terra sem par. Atualmente, passadas mais de duas décadas, o meu fascínio permanece intacto. Visitei a Birmânia em diversas ocasiões, tendo viajado até às suas regiões mais remotas, onde chegava por rio, a pé, de motocicleta e, por vezes, de carroça puxada por cavalos ou por bois. Apesar de hoje em dia muitas estradas terem sido recentemente concluídas e outras estarem em vias de construção, até há pouco tal alternativa não existia. O labirinto dos rios da Birmânia constituía o núcleo do sistema natural logístico do país. Facultavam a acessibilidade e forneciam os meios de separação entre as inúmeras regiões étnicas do país. Devido à ausência de acesso fácil, muitos grupos levavam uma vida de relativo isolamento e mantiveram as suas crenças, costumes e rituais inalterados durante séculos. Tendo passado algum tempo em várias regiões, tive a oportunidade de assistir a um sem-número de cerimónias tradicionais de uma grande diversidade exclusivas destas comunidades e, talvez ainda mais importante, de escutar as suas histórias.

 

Não raro, é através das suas lendas e fábulas que se pode compreender a evolução da Birmânia. Estas crónicas sobretudo orais têm a função de entrelaçar religião, história, proezas reais ou resultantes de superstições de uma forma que a história escrita não conseguiria. Tais narrativas foram transmitidas de geração em geração e desempenharam, através dos tempos, o papel de guias de causa e efeito para a compreensão das tendências do mundo natural, bem como para a contemplação dos numerosos reinos potenciais para além dele.

 

As narrativas variam entre as de vocação mais nobre, que procuram incutir um modo de vida, um código moral e um caminho, e as dedicadas a circunstâncias mais comuns, que fornecem receitas para as atividades e preocupações do dia-a-dia. Muitas vezes, estas últimas são uma fonte de humor que propiciam alívio cómico em tempos difíceis.

 

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 Burma

 

À medida que a paisagem urbana e as comunidades rurais birmanesas evoluem rapidamente, uma das transições mais difíceis para muitos reside no equilíbrio entre a profunda reverência pela natureza e as promessas decorrentes da prosperidade económica, moderada pelos receios firmemente arreigados de eventuais punições pela interferência com o curso da natureza. Os birmaneses mantêm laços estreitos com o planeta e com uma miríade de seres que, na sua crença de inspiração religiosa e animista, coabitam a Terra. Muitos acreditam que qualquer ingerência intempestiva na Natureza sem protocolos propiciatórios e consequentes contrapartidas pode originar uma retaliação grave. Os ensinamentos do Buda salientam a importância de nos mantermos em harmonia com a natureza, ao passo que se crê que outros espíritos habitam, velam e preservam todas as facetas do mundo natural.

 

Atualmente, a viagem do aeroporto para Yangon ao longo de estradas asfaltadas e viadutos de comunicação obstruídas por engarrafamentos, talvez nos leve a supor que o mundo natural e os seus seres espirituais não estão satisfeitos com as mudanças em curso. Certamente que o trajeto difere bastante do das minhas primeiras experiências. Agora, vagas de milhões de estrangeiros dirigem-se para a Birmânia. Um grande número de táxis, autocarros e uma praga nefasta de outros veículos motorizados aglomeram-se no exterior da aerogare modernizada do aeroporto de Yangon, apinhado de aviões oriundos de todo o mundo. Mesmo assim, apesar do verniz recentemente adquirido, ainda é possível encontrar-se, sob esta inovação cintilante, a Birmânia que conheci... enleada na teia dos seus numerosos contos.

 

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Lorie Karnath, escritora, exploradora e fotojornalista, viajou por quase todo o mundo. Foi a anterior presidente do Explorers Club (Clube de Exploradores) e a segunda mulher a ocupar este cargo nos 115 anos de história da sua existência. Preside ao The Explorers Museum (Museu de Exploradores) e à Global Explorers Alliance (Aliança Mundial de Exploradores), bem como à Explorer at Large for Jason Learning (Missão de Exploração para o Programa de Educação Jason). As suas viagens, frequentemente em busca de respostas a perguntas esquivas, conduziram-na a muitas das regiões mais longínquas do planeta. A Birmânia, em particular, constituiu um sítio especial para Lorie. Fosse onde fosse que as suas viagens a levassem, regressava sempre a este irresistível lugar. No decurso das suas visitas, teve oportunidade de percorrer o país e de registar em crónicas os seus povos, cultura, artes e arquitetura. A Birmânia, uma joia cintilante, é uma terra que, em muitos aspetos, parou no tempo. À medida que continua a abrir as suas fronteiras, verificam-se alterações inevitáveis e Lorie assistiu ao aparecimento gradual de estradas pavimentadas e ao consequente aumento da circulação de veículos, bem como ao advento de novas construções e à negligência e degradação de estruturas antigas e das tradições tribais. Lorie chefiou inúmeras expedições à Birmânia, incluindo a navegação do rio Chindwin, visitando ao longo do percurso muitas aldeias acessíveis apenas por água ou a pé. Presenciou e registou diversos rituais tribais, alguns deles a que ninguém não pertencente à respetiva comunidade tribal terá jamais assistido. A presente exposição, sobre a beleza e vastidão desta região complexa, constitui a segunda participação de Lorie numa exposição da Fundação D.Luís I. A primeira incidiu sobre os trabalhos do célebre fotógrafo Sam Shaw, e inspirou-se no livro da autora acerca do seu amigo de longa data e mentor fotográfico.

Lorie tem vários livros publicados, entre os quais se contam: Architecture in Burma, Sam Shaw, Verwegene Frauen, Eine kurze Geschichte des Vermessens, The Return of the Storks, Wohin geht die Sonne, wenn ich schlafe (w Gustav Born), The Long Path to Wisdom-Tales from Burma (Jan-Philipp Sendker, Lorie Karnath, Jonathan Sendker). Os artigos da autora e as suas fotografias premiadas figuram em numerosas publicações no mundo inteiro.

 

 

 
 
 
 
 

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