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[Piso 2]  30 de novembro a 18 de fevereiro


CLOTILDE FAVA | Naturalia

 

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N A T U R A L I A

 

As Wunderkammern, ou Câmaras de Maravilhas que proliferaram pelas cortes europeias durante Renascimento, e até ao século XVII, antecessoras dos actuais Museus de Arte, ilustraram na perfeição o processo dos Descobrimentos e do engenho humano. Nelas se reuniam os elementos dos três ramos da biologia considerados na época, animal, vegetal e mineral – as NATURALIA -, bem como objectos raros ou estranhos manufacturados pelo Homem – as Artifitialia. Fósseis, conchas, insectos, objectos de ourivesaria, marfins, mas também pinturas e esculturas, além de inusitados sangue de dragão ou esqueletos de animais míticos podiam ser encontrados nestes cobiçados Gabinetes de Curiosidades que, dando lugar nos séculos XVIII e XIX a Museus e Colecções oficiais, tiveram contudo grande importância para o desenvolvimento científico. 

De Naturalia, de Maravilhas da Natureza, se faz esta pintura de Clotilde Fava, preterindo o tradicional sentido da representação mimética a favor de uma alegoria da fertilidade e da regeneração humanas. O notável escritor britânico D. H. Lawrence, dissecador da sexualidade e das relações humanas no seio de uma sociedade moderna e industrializada cada vez mais desumanizada, considerado pornográfico ou obsceno na época e, hoje, reconhecido como um clássico da Literatura Inglesa modernista, aborda no seu fabuloso romance Mulheres Apaixonadas (1920), porventura a sua obraprima, que nenhum editor inglês aceitou ao tempo publicar, a descrição alegórica de um sexo feminino como um suculento figo.

No caso de Clotilde Fava, a sua estadia em África deixou-lhe memórias felizes, que guarda sem rancor nem ressentimento, e uma sensualidade telúrica que se manifesta neste ciclo de pinturas. São caules de onde emergem rebentos, cálices, estames, corolas e pétalas que a cor, aberta e vibrante, inunda de um luxo tropical. Estas flores exóticas e luxuriantes são metáfora da reivindicação do desejo no feminino, e alusão aos ciclos da vida que se regenera, floresce e perpetua. Neste biomorfismo sensual registam-se enquadramentos inusitados, numa espécie de imediatismo quase fotográfico, que evidenciam detalhes que importa descodificar. Outras vezes, são as flores inteiras e imponentes que se afirmam atraentes e sem pudor, como estas exóticas e sensualíssimas orquídeas que são metáfora da genitalia feminina. A cor, plana e aberta, sublinha esta sensualidade, das cores quentes – vermelhos, amarelos, rosas, laranjas – aos tons mais frios, verdes e azuis, que lhes são vizinhos e evocam, por vezes, possíveis universos florestais ou, até, submarinos. A organização das pinturas em grandes trípticos sublinha a condição matricial feminina, em alegorias florescentes pouco usuais num país de brandos costumes e moralidade frequentemente dúbia. Quinhentos anos de colonialismo, trezentos de inquisição, cinquenta de fascismo explicam esta condição mental anacrónica, felizmente cada vez mais envelhecida e diluída pelas novas gerações. Nesta metamorfose floral evidencia-se, afinal, o pulsar sensual, telúrico e incessante da própria vida.

 

Rui Afonso Santos
Curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea