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a utopia

 

 

Hans Holbein the Younger - Sir Thomas More - Google Art Project 402x500

 

 

No final do ano de 1516 saiu a 1ª impressão do livro de a Utopia de Thomas More, abrindo-se toda uma reflexão em torno deste conceito na nossa Modernidade. Muitas vezes se confrontaram utopia e ideologia, considerando estas como possíveis sinónimos, ou estabelecendo claramente as diferenças. Se é certo que esta Utopia, enquanto " nenhum lugar" se inspirou na República de Platão, e visou criticar o presente do seu autor, a sua repercussão no pensamento e nas práticas das sociedades continua a suscitar suscitar acalorados debates e a servir como estratégia de análise do nosso quotidiano. A partir da evocação de Thomas More debateremos esse "nenhum lugar" no nosso passado e presente.

 

 

Assim ao longo do debate e num primeiro
momento Ana Paula Menino Avelar reflectiu sobre:
 
Portugal e a Utopia de Thomas More

nos Alvores da Modernidade

[texto de Ana Paula Menino Avelar]


Utopia, de Thomas More, e a sua repercussão em Portugal nos alvores da Modernidade, é o ponto de partida para a análise breve do universo humanista que se construiu no Portugal de Quinhentos e os laços de convivialidade intelectual entre alguns dos nossos autores maiores e o universo inglês. Sendo o Renascimento considerado como um dos períodos de ouro da Utopia e constatando-se que, logo no momento em que a obra de More é escrita, este autor é referenciado em Portugal, nomeadamente nos textos que descrevem a nossa presença nos espaços asiáticos, importa conhecer o diálogo que então se estabelece. João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda ou Gaspar Correia ecoam, subliminar ou explicitamente, a função da utopia de escape protagonizada pelo texto de Thomas More. Esta deve ser entendida como uma construção ficcional e imagética que visa a harmonia, mas que deixa o mundo exterior tal como ele é.
Apesar de a utopia se situar numa extraterritorialidade: o nenhum lugar ou não–lugar, Thomas More utiliza uma territorialidade então vislumbrada, para imprimir a verosimilhança ao seu texto. Ele leu os então impressos relatos das viagens de Américo Vespúcio ao Novo Mundo e o seu narrador é um marinheiro português que teria acompanhado este italiano. Em Portugal vários autores referem logo no século XVI explicitamente More e a sua utopia. João de Barros, o desembargador de D. João III, e não o cronista da expansão, assinala-o no seu Espelho de Casados (1540) ao discorrer sobre as precauções que devem ser tomadas para que um marido não incorra em adultério e António Gouveia escreve no Epigrammata (1539) um epitáfio em sua memória. Por seu turno, Damião de Góis evoca a morte do Chanceler-Mor, tanto na correspondência trocada com Erasmo de Roterdão como no Eclesiastae (c. 1538). Também Jerónimo Osório o referira quando publicara, em Lisboa, um texto contra o anglicano Walter Haddon. A utopia como a cidade que não existe, é referenciada por Heitor Pinto na Imagem da Vida (1563). Este texto de Thomas More, enquanto fábula, é, enfim, para João Barros, o autor da Ásia..., um excelente meio de se exercitar a lição da História.

 

 

Já num segundo momento
Adelaide Serras debruçou-se sobre:
 

A Cidade Moreana
[texto de Adelaide Serras]


A Utopia de Thomas More reflecte, no seu título completo "Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia", o intuito de apresentar uma sociedade mais perfeita do que a Inglaterra de Quinhentos. Se no Livro I se apontam as causas que impedem o progresso nacional, o Livro II consiste na descrição de um mundo imaginado, situado em nenhures e isolado dos outros países para assim se proteger de interferências potencialmente nefastas. Embora contemple todo um estado, a descrição centra-se na vivência urbana, da civitas, no original, equivalente à polis, a cidade-estado grega, nomeadamente, as cinquenta e quatro cidades utopianas, representadas, em sinédoque, pela sua capital, Amaurot, a cidade invisível.
A escolha da cidade para ilustração do projecto Moreano radica claramente na tradição clássica, desde o modelo teórico idealista delineado por Platão em A República e a sua versão ficcional nas referências a Atlântida nos diálogos Timeu e Crítias, até às abordagens provindas da observação do real que Aristóteles propõe em Política. Modelos como a organização militar ou para-militar de Esparta, ou de Creta, ou os planos arquitectónicos de Hippodamus com impacto na ordem social que se aplicaram a muitas cidades gregas, reverberam o propósito de um planeamento citadino em que o conceito de ordem, tão caro na mundividência cristã medieval e renascentista, se afirma hegemónico.

 


Assim, partindo, de exemplos oriundos quer de realidades pretéritas,
quer de teorias gizadas por filósofos, More faz a sua análise, contrastando-as.
 
 

Num terceiro e último momento Fátima Vieira

debruçou-se sobre a recepção de A Utopia,

nomeadamente em Portugal:
[Texto de Fátima Vieira]


Thomas More escreveu a sua obra em 1516 em latim, esperando dessa forma ultrapassar a barreira das línguas nacionais e assegurar a circulação europeia da sua obra. A língua de escrita de A Utopia viria contudo a constituir um obstáculo para a compreensão da obra-prima de More por parte das gerações futuras, já que abriu as portas à intervenção de tradutores que nem sempre verteram fielmente para as suas línguas o texto original. O caso mais flagrante foi sem dúvida o da tradução para a língua inglesa em 1551 por parte de Ralph Robinson que, ao traduzir principem (que em latim significa "primeiro oficial") por "rei", transformou a república descrita por Rafael Hitlodeu numa monarquia. Saliente-se ainda o papel importante dos elementos paratextuais das primeiras duas edições em latim, que nem sempre foram tidos em consideração pelos tradutores.

A história da tradução de A Utopia para a língua portuguesa é recente e contrasta com o que se passou com outras línguas europeias (tradução alemã, 1524; tradução italiana, 1548; tradução francesa). Tal ter-se-á ficado a dever em parte à ação da Inquisição, já que a obra de More foi proibida nas edições de 1581 e de 1625 do Catálogo dos Livros que se prohibem nestes regnos e Senhorios de Portugal. A primeira tradução parcial da obra (Livro II) surge em 1946, assinada por Agostinho da Silva e integrada nos Cadernos de Informação Cultural—Introdução aos Grandes Autores. Esta tradução, tal como a segunda, assinada por Berta Mendes (Editora Cosmos), terá sido feita a partir do inglês, embora não certamente a partir da tradução de Ralph Robinson. Outras traduções mais tardias (Maria Isabel Gonçalves Tomás, várias edições na Europa-América a partir de 1973, e António Simões do Paço, duas edições, Coisas de Ler) recorrerão também a uma tradução inglesa (à de Ralph Robinson, no caso da Europa-América), com consequências problemáticas a nível da recepção da obra no que respeita à tradução assinada por Isabel Tomás. Apenas as traduções assinadas por José Marinho (16 edições a partir de 1952) e, mais recentemente, por Aires do Nascimento (4 edições desde 2006, Fundação Calouste Gulbenkian), traduziram A Utopia a partir do original em latim, tendo a preocupação, no caso da edição da Gulbenkian, de incluir quase todos os elementos paratextuais originais.

 

 

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