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O W 


Daquilo que alguns chamam o enigma Orson Welles, teia de genialidade e manipulação, há uma coisa inescapável, a voz. Ouvida uma vez, nunca mais se esquece e pensa-se de imediato que é a mais shakespeareana de todas as que ouvimos dizê-lo. Pode chegar-se ao desespero de acreditar que Shakespeare inventou algumas personagens e escreveu as falas delas apenas para que Welles, se assim o entendesse, as tornasse suas interpretações. Esta voz, repete-se, shakespeareana, larger than life, parecia provir de um mundo mágico onde conciliava todas as potencialidades da rádio, do teatro e do cinema: o audiovisual.


Welles foi de facto um génio (com um toque de malabarista fraudulento: um fingidor), ao qual Hollywood se rendeu (enquanto pôde, ou quis), fascinada pelo talento multímodo do homem das barbas. Sobre esta relação, vale a pena ler The Pat Hobby Stories, de Scott Fitzgerald: Hollywood is abuzz about the arrival of Orson Welles. Meanwhile, tightened security prevents Hobby from entering the studio. His frustration takes the form of a hatred of Welles, about whom Hobby knows very little aside from the fact that he has a beard, and is making a great deal of money.


Como encarar alguém que, quando lhe perguntaram quais os seus realizadores favoritos, deu três nomes: John Ford, John Ford e John Ford.


Quando descobriu que se tinha esgotado o tempo de vida que Hollywood lhe concedera, Welles procurou novas pastagens e realizou obras tão seminais como A Dama de Xangai, Mr. Arkadin, Macbeth, Otelo, O Processo, Badaladas da Meia-Noite, História Imortal, Fake, rodadas onde pôde, ao mesmo tempo que a sua inesgotável criatividade o fazia empreender um projecto com paixão máxima e deixá-lo cair para o recuperar muitos anos depois, como são os casos do inacabado Don Quijote e do testamento sobre si e o cinema intitulado The Other Side of the Wind.


Quando os duros deuses da produção não o deixavam realizar, dedicava-se a representar, como nessa portentosa obra-prima de Carol Reed, O Terceiro Homem, em que a sua presença é avassaladora. Avassalou também Moby Dick, de John Huston, e muitos outros filmes, fazendo valer o seu magnetismo de dimensão bíblica que parecia conter Bem e Mal.


O que se celebra nestes cem anos é a lembrança de um criador torrencial, alguém que sabia manipular todas as potencialidades do som e da imagem, alguém que, jocosamente, definiu o cinema como o maior comboio eléctrico do mundo.

 

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Orson Welles no Guincho, fotografado por Eduardo Gageiro

 

ORSON WELLES
CELEBRAR O CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO [1915 – 2015]

 No ano em que o mundo celebra o centenário do nascimento de Orson Welles, a Fundação D. Luís I não poderia deixar de evocar também essa data centenária, em Cascais, apresentando, no âmbito da programação do Bairro dos Museus, uma sessão que, embora simples e despretensiosa, não só sublinha a obra - notável - de um dos maiores realizadores da História do Cinema, como se propõe contribuir, através do debate e da troca de ideias, para ampliar o conhecimento dessa figura singular do século XX, de porte magnífico e imponente, e dono de uma voz extraordinária.

 

 

 

 

 

P R O G R A M A Ç Ã O

23 de Outubro


 
 
21h00 - Filme
CITIZEN KANE
O Mundo a Seus Pés – 1941

 

Interpretação:

Orson Welles
Joseph Cotton
Dorothy Comingore
Agnes Moorhead
Ray Collins
e muitos outros

 

Direcção de Fotografia:

Greg Tolland

 

Montagem;

Robert Wise

 

Música:

Bernard Herrmann

 

Duração:

120 minutos (2h00)

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24 de Outubro
 
17h00 - Filme
JOURNEY INTO FEAR
A Jornada do Medo – 1943
 

 

Interpretação:
Orson Welles
Joseph Cotton
Dolores del Rio
Ruth Warrick
Agnes Moorehead
Jack Durant


Direcção de Fotografia:
Karl Struss


Montagem;
Mark Robson


Música:
Roy Web


Duração:
68 minutos (1h08)

 

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18h30 - Debate
JOSÉ FONSECA E COSTA | PEDRO MEXIA | PAULO TRANCOSO
Moderador: Salvato Teles de Menezes
 
 
DOIS DEDOS DE CONVERSA SOBRE ORSON WELLES
Três homens cujas vidas estão entranhadas de paixão pelo Cinema, juntam-se no auditório da Casa das Histórias Paula Rego no próximo sábado, dia 24, pelas 16h30, para conversarem entre si - e com o Público - sobre a vida, a obra e a enorme influência que teve nas Artes do século XX a dimensão de um dos maiores nomes da História do Cinema, de quem o Mundo, a seus pés, lhe celebra este ano o centenário do nascimento.

José Fonseca e Costa é um desses três homens, cuja vida se ligou ao cinema bem cedo, para o que teve uma influência decisiva a sua estreita ligação ao Cineclube Imagem, fundado em meados da década de 1950. Fez-se crítico de cinema, realizou vários documentários até 1970 e em 71 fez a sua primeira longa-metragem de ficção: O RECADO, com José Viana e a lindíssima Maria Cabral. A partir desse, fez muitos outros filmes, dos quais vários foram grandes sucessos. Só para citar alguns recordemos o divertidíssimo "Kilas, o mau da Fita"; o magnífico "Balada da Praia dos Cães" , no qual Raul Solnado desempenha um os melhores papéis da sua longa vida de Actor, ou "Cinco Dias, Cinco Noites", adaptado do romance de Álvaro Cunhal.
Paulo Trancoso é outra das presenças que honram este encontro a três para "dois dedos de conversa" sobre um dos grandes génios do Cinema: Orson Welles. Paulo Trancoso frequentou Medicina; depois ensaiou Arquitectura, mas acabou por se voltar definitivamente para o Cinema que era, há muito, a sua paixão "secreta". E abraçou, nessa vida, a "especialidade" que é de todas a mais difícil e tão frequentemente a mais "ingrata": a profissão de Produtor. Fundou a Costa do Castelo Filmes em 1982 e apostou - porque a compreendeu - na importância da internacionalização das capacidades portuguesas de produção; é de Paulo Trancoso a "culpa" de Billie August ter filmado em Portugal "A Casa dos Espíritos", de Patrice Chéreau também ter cá filmado "A Rainha Margot" e do nome de Lisboa ter corrido o mundo inteiro no "Combóio Nocturno para Lisboa", com Jeremy Irons. Recentemente, Paulo Trancoso foi ainda o fundador da Academia Portuguesa de Cinema, responsável pela atribuição dos Óscares portugueses: os prémios SOFIA.
Pedro Mexia não é "profissional de Cinema" no sentido funcional do termo. É profissional das Leis, pois formou-se em Direito. Mas dedica grande parte da sua vida profissional a outros gostos: foi critico de cinema, é cronista e escreve regularmente para diversos jornais. É homem da Rádio (como Welles também foi) e entrou para o Governo (Sombra...) em 2008; primeiro na Rádio depois na Televisão. Gosta muito de poesia e ele próprio é Poeta, com 8 livros publicados. De entre várias traduções que fez, destaque-se aqui a que fez do livro escrito pelo cineasta Robert Bresson: "Notas sobre o Cinematógrafo". E foi director interino da Cinemateca Portuguesa de 2008 a 2010.
Vamos ouvi-los.

 

 

21h00 - Filme
THE MAGNIFICENT AMBERSONS
O 4º Mandamento - 1942

 

 

Interpretação:
Orson Welles
Joseph Cotton
Dolores Costello
Anne Baxter
Tim Holt
Agnes Moorehead


Direcção de Fotografia:
Stanley Cortez


Montagem;
Robert Wise


Música:
Bernard Herrman


Duração:
88 minutos (1h28)

 

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CELEBRAR ORSON WELLES

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Foto de Carl Van Vechten

    

Orson Welles, foi actor de teatro e de cinema, realizador, encenador, mágico, argumentista, pintor, homem da Rádio, dramaturgo, produtor de teatro e de cinema. Nasceu a 6 de Maio de 1915 em Kenosha, uma cidade na margem do Lago Michigan. A mãe morreu quando Welles tinha 7 anos. E quando tinha 15, morreu o pai. Decide então viajar para a Europa fixando-se inicialmente em Dublin, na Irlanda, onde começou a frequentar assiduamente o Gate Theatre até conquistar alguma intimidade com Actores e Encenadores. Uma intimidade que lhe permitiu "confidenciar" que era um jovem actor de sucesso, na Broadway, mas que queria conquistar a Europa. Era um jovem bonito, elegante, bom conversador, de riso e graça fáceis, de imponente estatura (tinha praticamente 1,90) e era dono de uma voz soberba.

No ano seguinte representou The Circle, de Somerset Maugham, no prestigiado Abey Theatre, fundado pelo grande poeta e dramaturgo Irlandês, W. B. Yeats. Mais tarde tentou a sua sorte em Londres, mas, como não conseguiu obter licença de trabalho, teve de regressar aos Estados Unidos onde, com a ajuda de alguns amigos influentes, foi contratado em Chicago para participar em três peças, incluindo Romeu e Julieta.

Em 1934 começou a trabalhar em Rádio; tinha 19 anos. E foi com 19 anos que Welles rodou o seu primeiro ensaio cinematográfico, The Hearts of Age, uma curta-metragem de inspiração surrealista, na qual Welles, com a cara pintada de preto, desempenhava o papel da Morte. Uma obra com 8 minutos, que parece ter sido inspirada nas experiências surrealistas que Buñuel e Cocteau tinham ensaiado no cinema 5 ou 6 anos antes.

Orson Welles fez então uma vida no teatro, principalmente envolvido no Federal Theatre Project. Pouco depois, com 21 anos, Orson Welles teve o arrojo de encenar, no Mercury Theatre, uma adaptação de Macbeth, de William Shakespeare, integralmente representada por actores Negros, Black Macbeth, que foi um êxito colossal em Harlem. Mas apesar dos êxitos do jovem Welles, quer como actor quer como encenador, nunca abandonou a Rádio na qual alcançou - de um dia para o outro - uma fama gigantesca, com uma excelente encenação radiofónica baseada na Guerra dos Mundos, corria a noite de 30 de Outubro de 1938. Em muitas cidades e vilas americanas o pânico das populações foi generalizado, tal era o realismo do relato de Orson Welles e o poder da vigorosa sonoplastia que construiu.   wotw-orson-welles 

Curiosamente, alguns meses depois da sua Guerra dos Mundos, tropas nazis invadiam a Polónia. Começava a 2ª Guerra Mundial. E foi durante a 2ª Guerra Mundial, com a potência americana ainda neutral, que Orson Welles se iniciou no cinema que viria a vincar o seu nome na história.

Muitos dos filmes que escreveu e realizou giram em torno da ascensão e queda da personagem principal: Charles Foster Kane, em Citizen Kane (O Mundo a seus Pés), Hank Quinlan, em Touch of Evil (Sede do Mal) ou Gregory Arkardin, em Mr. Arkadin (Relatório Confidencial). Protagonistas de histórias que quase sempre, ao estilo do teatro de Shakespeare, são destruídos pelos seus próprios vícios, fraquezas ou paixões.
É-lhe comummente reconhecida, hoje em dia, a magistral capacidade de conceber planos de grua extremamente complexos, eficazes e por vezes tão "desesperadamente" longos que nos oferecem planos-sequência desconcertantes, como é o caso dos primeiros três minutos e meio do A Sede do Mal. Igualmente reconhecido é o seu gosto pelas grandes profundidades de campo, pelos ângulos de câmara invulgares, pela utilização criativa da iluminação, pelo cuidado na criação dos sons (que trouxera da Rádio) e pelos travellings de belíssimo efeito. Diz-se frequentemente que enquanto houver luz e sombra, o Cinema existirá. Orson Welles provavelmente acrescentaria mais um substantivo: enquanto houver luz, sombra... e movimento.

 

 

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Quando descobri as funções de um realizador foi ao ver pela primeira vez "O Mundo a Seus Pés" (Citizan Kane) na televisão. E capacitei-me do que era a importância da montagem e da posição ideal da câmara. 70 anos depois tão preciosas inovações foram não só compreendidas como, principalmente, totalmente absorvidas pela maneira como nos apercebemos da narrativa da imagem em movimento e mudámos a base dos filmes e por aí fora. É claro que ele era um ilusionista maravilhoso, um grande actor e encenador. Mas isso não significa quase nada comparado com a grandiosidade da sua realização de filmes."O Mundo a Seus Pés" é uma obra de arte que perdura e uma experiencia irresistivelmente poderosa física e emocionalmente, que me prende sempre e de cada vez que vejo o filme.

Martin Scorsese In "This is Orson Welles", realizado pelas irmãs Clara e Júlia Kuperberg (Wichita Films)

 

O Mundo a Seus Pés (1941) foi a primeira longa-metragem de Welles, da qual foi produtor, realizador e actor. Tinha 26 anos. O filme foi distinguido com um Oscar para o Melhor Argumento Original. Contudo, o filme foi um fracasso comercial. Mas foram no entanto muitos os críticos e os espectadores mais cinéfilos que desde logo o consideraram uma verdadeira obra-prima. O seu segundo filme, The Magnificent Ambersons (O Quarto Mandamento, 1942) foi também um fracasso de bilheteira. Provavelmente porque neste seu segundo filme Welles perdeu totalmente o controlo da montagem para os estúdios da RKO. E a versão apresentada ao público nada tinha que ver com o projecto inicial de Welles. Além do filme ter sido amputado em cerca de uma hora da footage filmado por Welles, a RKO filmou diversas cenas de novo e substituiu a parte final do filme para lhe dar, no entender dos patrões da RKO, um happy ending mais agradável. O realizador ficou furioso.

Seguiu-se Journey into Fear (A Jornada do Medo, 1943), embora seja Norman Foster a assinar a realização do filme e não Welles. Em 1946 realiza The Stranger (O Estrangeiro) no qual Welles desempenha o papel de um criminoso nazi, Franz Kindler, que tinha fugido para os Estados Unidos após a derrota de Hitler. De sublinhar que The Stranger, rodado poucos meses depois do fim da 2ª Guerra Mundial, é o primeiro filme a mostrar imagens dos campos de concentração e do extermínio em massa de judeus. No ano seguinte realiza The Lady from Xangai (A Dama de Xangai, 1947). E em 1948 adapta ao cinema uma das mais celebradas tragédias de William Shakespeare, Macbeth, que também não é bem recebido nos Estados Unidos.

Orson Welles decide então abandonar os Estados-Unidos e auto-exilar-se na Europa, onde veio a encontrar um produtor italiano disposto a investir num projecto seu baseado noutra peça de Shakespeare: Othelo. O filme só ficou concluído em 1952: primeiro porque, logo no início da rodagem, o produtor italiano declarou falência e o filme parou. Welles não quis no entanto abandonar o projecto, nele investindo o seu próprio dinheiro. Quando o dinheiro acabou, a rodagem voltou a ser interrompida ao longo de vários meses e Orson Welles foi em demanda de financiamento, que no entanto nunca se confirmaram. Trabalhou então noutras produções, nomeadamente como actor, para juntar dinheiro que lhe permitisse terminar o filme. Satisfeito com o resultado, Orson Welles inscreveu Othelo no Festival de Cannes de 1952 e foi distinguido com a Palma de Ouro, alcançando em seguida um assinalável êxito na Europa. Nos Estados Unidos o filme era praticamente desconhecido.

Em 1955 Orson Welles surge com novo filme, co-produzido pela França, Espanha e Itália: Mr. Arkadin (Relatório Confidencial) que os Estados Unidos também mal conheceram. Um filme recheado de excelentes enquadramentos e de notáveis posições da câmara a que se acrescenta uma particularidade que até então ninguém tinha usado: o recurso a frequentíssimos planos em contra-picado, muitas vezes perto do nível do chão, proporcionando imagens de invulgar força e poder. Há sequências inteiras totalmente filmadas em contra-picado. Notável.

Três anos depois de Mr. Arkadin, Welles apresenta outro dos seus filmes maiores: Touch of Evil (Sede do Mal, 1958) que assenta em temas muito melindrosos para a época: crime organizado, racismo, drogas, corrupção na polícia. Mas a "marca" mais profunda e indelével do filme é a sua extraordinária abertura: três minutos e meio de uma plano-sequência absolutamente genial, sendo mais uma vez na Europa que o filme é distinguido com o prémio para Melhor Filme no Festival de Bruxelas de 1958.

"Falstaff - Chimes of midnight" (Badaladas da Meia-Noite/1965) é outro dos seus filmes mais notáveis. Baseado na figura de Sir John Fallstaf, uma personagem criada por Shakespeare, fanfarrão e boémio, presente em cinco das peças do bardo inglês. Certamente que a adaptação ao cinema de 5 peças de Shakespeare, cruzando-as para criar uma única história não foi por certo tarefa fácil e poderia ser tudo, excepto convencional. Porém, actualmente, Falstaff é uma das proezas mais fascinantes de toda a obra cinematográfica de Orson Welles. O realizador afirmava ter um carinho muito especial por esse filme e considerava-o uma das suas melhores produções. E ele próprio dizia: Se eu alguma vez quisesse entrar no Céu com base num dos meus filmes, era certamente esse que eu apresentaria.

Em 1962 volta a reunir o apoio de produtores europeus (de França, Itália e Alemanha) e roda a sua adaptação ao cinema de um romance de Franz Kafka (Der Prozess): Le Procès (O Processo). Uma adaptação na qual muitos viram reflectida uma alegoria da terrível perseguição política do maccartismo a membros ou supostos membros e simpatizantes do P. C. americano, que se transformou numa medonha "caça às bruxas" alimentada por acusações anónimas e denúncias não identificadas. Um filme que é, na nossa opinião, mais uma obra-prima na valiosíssima filmografia de Orson Welles: uma direcção de arte impressionante, que transforma espaços cénicos em obras de imponente impacto visual, uma direcção de fotografia notável onde a iluminação atinge a excelência e, acima de tudo, um trabalho de realização absolutamente extraordinário, repleto de ângulos de câmara e enquadramento notáveis que configuram poderosos propósitos narrativos.

Em 1974 chega às salas de cinema aquela que seria a última longa-metragem de Orson Wells: F for Fake (F de Fraude) um filme co-produzido pela Alemanha, França e Irão que permitiram a Orson Welles fazer um notável filme de Arte e, metaforicamente, sobre a Verdade e a Mentira. Um filme realizado como se de um documentário se tratasse, no qual Welles fala directamente para a câmara, em amena conversa com o espectador. Não sendo um dos melhores filmes do centenário semideus do olimpo cinematográfico, F for Fake é, para quem gosta verdadeiramente de cinema, uma experiência de enorme relevância que se aconselha ver com minuciosa atenção. O momento mais profundo e poderoso de F for Fake é a forma como Orson Welles cogita, serenamente, sobre as glórias da quase milenar catedral de Chartres, que marca o auge da arte gótica francesa e dispensa reflexões sobre a paternidade da sua autoria.

Em 1975, apesar dos desaires comerciais nos Estados Unidos, o American Film Institute atribuiu um prémio à sua carreira. Em 1984, a Associação de Realizadores Americanos distinguiu-o com uma das maiores honras do Cinema Americano: o Prémio D.W. Grifith. E a partir daí a sua importância e prestígio na História do Cinema não pararam de crescer, para o que muito contribuíram os filmes que realizou na Europa onde passou a ser reconhecido como uma extraordinária força criativa e os seus filmes considerados verdadeiro Cinema de Autor.
Em 2002, por iniciativa do British Film Institute, diversos realizadores e críticos foram convidados a eleger o melhor realizador de todos os tempos. Orson Welles foi o mais votado.

O filme que Orson Welles infelizmente não concluiu foi The Other Side of the Wind, que filmou entre 1970 e 1977, embora de forma intermitente, contava a história de um velho realizador (interpretado por John Huston) que procurava, desesperadamente, financiamento para concluir o último filme da sua vida. Além de Huston, o elenco incluía muitos dos seus maiores amigos: Peter Bogdanovitch, Norman Foster, Susan Strasberg, Canerin Mitchell e Dennis Hopper.
Um dia, sentindo que a morte já rondava ali perto, chamou Peter Bogdanovich e disse-lhe: «Se um dia me acontecer alguma coisa, quero que me prometas que acabas o filme.» «Mas que disparate», respondeu Bogdanovich. «Por que raio haveria de te acontecer alguma coisa?». «Eu sei, eu sei», disse Welles naquela sua voz inconfundível. «Mas se por acaso acontecer, promete-me que acabas o filme, está bem?».
Um dia, sentindo que a morte já rondava ali perto, chamou Peter Bogdanovitch e disse-lhe: "Se um dia me acontecer alguma coisa, quero que me prometas que acabas o filme". "Mas que disparate", respondeu Bogdanovitch; "Porque raio haveria de te acontecer alguma coisa?". "Eu sei, eu sei", disse Welles naquela sua voz inconfundível. "Mas se por acaso acontecer, promete-me que acabas o filme, ok?".

 

 

Chris Welles 400x266  

Penso que de alguma forma, como muitos génios, o meu pai tinha a noção, sabia que era genial; homens assim vivem muito para além do seu tempo. E penso que o meu pai sabia isso, o que de certo modo me consolava. Lembro-me, numa das nossas longas conversas, de lhe dizer que estava triste por ninguém financiar o resto de "The Other Side of the Wind" E ele soltou uma das suas tão características gargalhadas e disse-me: "Não te preocupes, minha querida; depois de morto vão todos adorar-me"

Chris Welles a filha mais velha de Orson Welles

In "This is Orson Welles", realizado pelas irmãs Clara e Júlia Kuperberg (Wichita Films)

 

 

Orson Welles morreu em Outubro de 1985. Tinha 70 anos. E das muitas frases que ficaram na memória dos seus maiores amigos uma foi quando Welles falava dos seus Mestres: "No Cinema prefiro os velhos Mestres, ou seja: John Ford, John Ford, John Ford".

 

 

 

 

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