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"Quando, em meados do século XX, foi possível começar a historiar a arquitectura portuguesa dos fins do século XIX em transição, a personalidade de Ventura Terra impôs-se em lugar cimeiro e ímpar, com a sua obra iniciada na adaptação no convento de S. Bento que Ramalho Ortigão pôs então a par da obra do Palácio da Ajuda
O Banco Lisboa & Açores da Rua do Ouro, a Sinagoga e a sua própria casa, na Rua Alexandre Herculano, elevada ao lado, e mais três liceus, a Maternidade Alfredo da Costa, o Politeama, palacetes como o da Viscondessa de Valmor na Avenida da Republica, e outros mais, e o projecto de um "Splendid Hotel" para o Estoril que se anunciava, foram marcando uma obra que fez de Ventura Terra o arquitecto maior de uma Capital que se actualizava no gosto parisiense da sua formação.
Uma obra que, ao fim da vida cedo terminada, em 1919, levou ao seu Minho natal a excelente basílica de Santa Luzia em Viana do Castelo. Que já o seu conterrâneo e colaborador Miguel Nogueira terminou, nisso devendo ser lembrado também."

Cortesia José Augusto França e Alda Terra

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Miguel Ventura Terra 

 ISABEL d'ALVARENGA

 

Cento e cinquenta anos após o seu nascimento, a Câmara Municipal de Cascais presta homenagem a um dos mais importantes arquitetos portugueses da passagem do século XIX para o século XX. A vasta obra de Miguel Ventura Terra, sobretudo centrada em Lisboa, encontra-se também em Cascais, no Funchal e no norte do país, nomeadamente em Esposende, Póvoa de Varzim, Seixas-Caminha, onde nasceu, Viana do Castelo e Porto. 

 

Ventura Terra frequenta o curso de Arquitetura na Academia Portuense de Belas-Artes entre 1881 e 1886. Parte para Paris nesse mesmo ano como bolseiro do Estado na classe de Arquitetura Civil. Ali, frequenta a École Nationale et Speciale des Beaux-Arts, obtendo em 1894 o Diploma de Arquiteto de 1.ª Classe do governo francês. Regressa definitivamente a Portugal em 1896, instalando se em Lisboa. O seu percurso académico foi notável. Porém, a aprendizagem parisiense não podia ser plenamente exercida em Portugal, país política e culturalmente conturbado, num esforço sem resultados evidentes para encontrar caminhos de prosperidade económica e social. O gosto parisiense não se ajustava a uma burguesia que se afirmava nos grandes centros urbanos e que não se revia numa arquitetura de feição europeia, onde tradição, forma e função procuravam, pelo traço de Ventura Terra, soluções originais. 

 

Apesar da notoriedade que lhe era já reconhecida, Ventura Terra foi em 1896 nomeado Arquitecto de 3.ª Classe da Direcção de Edifícios Públicos e Faróis. Nesse ano ganhou o concurso internacional para a adaptação do velho Convento de S. Bento a Palácio das Cortes. Esta obra, que não chegou a concluir por causa da excessiva morosidade, marca o início do seu percurso de arquiteto em Portugal. A partir de então, Ventura Terra projeta em função dos mais diversos programas, fruto de encomendas públicas e particulares. Apesar de a maioria das suas obras serem prédios de rendimento ou palacetes – que em Lisboa foram distinguidos com o Prémio Valmor em 1903, 1906, 1909 e 1911 e Menção Honrosa em 1913 – projetou também hospitais, teatros, liceus, escolas, igrejas, pavilhões de exposições, equipamentos assistenciais e monumentos. A atividade de Ventura Terra contemplou também o urbanismo, destacando-se nesta área os projetos para o Parque Eduardo VII, os planos para a zona ribeirinha de Lisboa (1908), cidade em relação à qual, numa atualidade pertinente, sempre defendeu a ligação ao rio, e, ainda, o Plano de Urbanização do Funchal (1915). 

 

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O pano de fundo que acompanhou os anos da sua maior produção, na passagem do século XIX para o século XX, são coincidentes em Portugal com uma maior definição dos contornos do exercício da profissão de Arquiteto, até então associativamente dispersos, fundamentalmente entre a Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, criada em 1863 por Possidónio da Silva, e o Grémio Artístico. Também neste domínio, a formação parisiense de Ventura Terra, que lhe conferiu uma forte consciência de classe profissional, se revelou determinante no modo como se empenhou na constituição da Sociedade dos Arquitetos Portugueses, iniciada pelo menos em 1898, formalmente instituída em 1902 e em atividade a partir de 1903, e da qual foi o primeiro presidente. Exercendo a sua profissão num compromisso pleno, o desempenho de Ventura Terra aproxima-se de um conceito plural e humanista. Pela sua vida profissional cruzam-se vetores de defesa do exercício da profissão,a aposta num plano de formação teórica e técnica, a noção da importância de manter a abertura aos debates internacionais no seio da sua classe e uma forte consciência de cidadania que o leva, em 1908, a ser eleito para a Câmara Municipal de Lisboa, no grupo de candidatos republicanos. Será como vereador, até 1913, que, com maior evidência, transparecem as suas preocupações e se conhecem mais claramente as suas concepções de Arquitetura e Urbanismo, sempre enunciadas com plena consciência do exercício da profissão no enquadramento do serviço público. É relevante verificar que, da pequena à grande escala, se registam sucessivas intervenções que manifestam uma profunda preocupação relativamente à vivência da cidade, à sua organização interna e à sua modernização, com vista a torná-la uma capital de nível europeu. Mas também se registam, por exemplo, situações de solidariedade para com moradores que apresentam à Câmara as suas reivindicações, ou para com os trabalhadores da própria edilidade, que o procuram como interlocutor. Tudo isto, toda esta "forma de ser arquiteto", transparece nos projetos de Ventura Terra, que refletem, numa articulação deliberada com o encomendador, preocupações de qualificação dos espaços onde intervém, manifestadas nos diferentes níveis de contenção orçamental e formal a que recorre. 

 

Esta exposição procura sublinhar o profissional de Arquitetura. Mas há também a ambição de dar a conhecer o homem que nunca se afastou das suas origens minhotas e o amigo dos mais destacados inteletuais e artistas do seu tempo, como Ramalho Ortigão, o escultor António Teixeira Lopes e o seu irmão, Arquiteto José Teixeira Lopes, e os pintores Veloso Salgado e Tomás da Anunciação, entre muitos outros. E ainda mostrar que a morte prematura de Ventura Terra em 1919, com apenas 53 anos, não o relegou ao esquecimento e que a obra que deixou é fundamental no contexto da produção arquitetónica portuguesa. Permaneceram num registo de longa duração as memórias, os ensinamentos e o exemplo da dedicação abnegada do Mestre Ventura Terra entre aqueles que com ele trabalharam ou conviveram e entre os que se lhe sucederam e os que o tinham como referência.

 

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Ventura Terra em Cascais

 JOÃO MIGUEL HENRIQUES

 

A partir de 1870, a Família Real imporia Cascais enquanto praia da moda, na sequência da conversão da antiga casa do Governador da Cidadela num despretensioso Paço Real, onde D. Luís, D. Maria Pia e os príncipes D. Carlos e D. Afonso passaram a instalar-se em meados de setembro, por um período que se estendia por outubro até à abertura da temporada do S. Carlos. Consequentemente, já em 1881 o Guide du Voyageur en Portugal anotava que «Cascais é a Trouville de Portugal: a praia mais bem frequentada durante a saison. A família real instala-se habitualmente aqui, transformando-a no rendez-vous do beau monde da capital».

 

 

A estada da Corte tornou a vila merecedora da ligação ferroviária até à capital. Desta forma, em 1889 o caminho-de-ferro entraria em funcionamento a partir de Pedrouços, sendo depois estendido até Alcântara-Mar, em 1890, e ao Cais do Sodré, no ano de 1895. Assumiu-se, desde então, como o mais poderoso instrumento de desenvolvimento do concelho, que se pôde afirmar definitiva e progressivamente enquanto estância turística de referência, apoiando a ocupação do litoral do concelho, como sucederia no Monte Estoril, a antiga Costa de Santo António, cujo projeto de urbanização foi conduzido pela Companhia Monte Estoril a partir de 1888. Tendo por ambição a recriação de um cenário similar ao das reputadas praias de Cannes, Arcachon ou Saint Raphael, a companhia adquiriu terrenos e edificou as primeiras habitações, dotando a nova localidade de abastecimento de água próprio e de iluminação elétrica, muito antes de Cascais dispor desta mais-valia.

 

CMES 236

Monte Estoril, c. 1900 [AHMCSC/AESP/CMES/236 e 243]

 

A sua consagração enquanto centro de vilegiatura de primeira ordem, frequentado pela aristocracia e burguesia abastada, seria facilitada pela instalação da Rainha D. Maria Pia, a partir de 1893, ainda que o Casino do Monte Estoril, em funcionamento desde 1891; o Grand Hotel (Estrade), inaugurado no ano de 1898; e o Casino Internacional e o Grand Hotel d'Italie, que remontam a 1899, se destacassem como as estruturas mais relevantes para a atração das elites sociais, sedentas de diversão e conforto. Deste modo, apesar de a proibição do jogo, em 1900, conduzir à falência do projeto inicial, estavam definitivamente lançadas as bases para o desenvolvimento da localidade, ainda hoje pontilhada de belíssimos exemplares da denominada arquitetura de veraneio, que atestam a mestria de dezenas de arquitetos nacionais e estrangeiros.

 

Miguel Ventura Terra (1866-1919) não deixaria de imprimir a sua marca de genialidade neste novo território, contribuindo de forma decisiva para a difusão da arquitetura de veraneio, ao definir a composição mais habitual do chalet, que tendeu a organizar-se em dois corpos distintos: um paralelepipédico, ao baixo, e outro erguendo-se, em secção quadrangular, como motivo de torreão. Aqui divulgou igualmente o modelo de casa de veraneio plurifamiliar, organizada em banda, numa opção cosmopolita e inovadora, de que são exemplo as quatro habitações geminadas que desenhou, em 1900, para Miguel Henriques dos Santos, na Rua do Pinheiro, no Monte Estoril: as casas Júlia, Luísa, Hermínia e Otília (n.ºs 4-8), cujo processo de obra ainda hoje se preserva no Arquivo Histórico Municipal de Cascais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CMC L E 001 002 004 0243 1 101x150 

CMC L E 001 002 004 0243 2 650x432 
Casas de Miguel Henriques dos Santos, Monte Estoril, 1900
[AHMCSC/AADL/CMCSC/L/E/001-004/243]

 

No ano seguinte gizou nova habitação no Monte Estoril, desta vez na Rua de Nice (n.º 8), para J. M. de Abreu Valente, que seria apresentada na edição de 16 de janeiro da Construção Moderna. O processo de obra original desta elegante construção da parte alta do Monte Estoril traduz o equilíbrio de proporções e jogo simples de volumes que caraterizam a obra de Ventura Terra, a que apenas os frisos de azulejo arte nova, a anteceder as linhas de telhado, conferem vivacidade. A casa espelha, assim, de forma exemplar, o interesse demonstrado pelo arquiteto na renovação do modelo da habitação unifamiliar, caraterizado pelo delineamento austero da planta e contenção dos elementos decorativos.

 

 

 

 

 

 

 

CMC L E 001 002 004 00258A 1 101x150 

CMC L E 001 002 004 00258A 2 650x309 

Casa de J. M. de Abreu Valente, Monte Estoril, 1901
[AHMCSC/AADL/CMCSC/L/E/001-004/258A]

 

Já da casa que projetou para o General Adriano Augusto de Pina Vidal, na Rua de Bicesse, atual Avenida dos Bombeiros Voluntários, no Estoril, publicitada em janeiro de 1902 na Construção Moderna como «construção elegante, embora relativamente das mais modestas das que o Sr. Ventura Terra tem projetado», apenas conhecemos os desenhos, não sabendo se terá sido concretizada. O mesmo sucede com as habitações que gizaria para Miguel Henrique dos Santos «para serem construídas próximo a Cascais», acerca das quais a Construção Moderna anota, em novembro de 1904, que «quem olhar para os desenhos suporá tratar-se apenas de uma casa, quando tem três».

 

Ventura Terra desenhou igualmente um hotel para o concelho, nunca concretizado: o Splendid Hotel, na Avenida D. Carlos I e Rua Tenente Valadim, em Cascais, que viria a ser publicitado em agosto e setembro de 1903 na Construção Moderna e em brochura publicitária que se conserva no Arquivo Histórico Municipal de Cascais. Trata-se de um projeto do «opulento capitalista Exmo. Sr. Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos e dos seus amigos, os Exmos. Srs. Júlio Nunes e Ventura Terra», que «quiseram dotar Cascais de um hotel [dotado de café-restaurante] que emparelhasse com os melhores do estrangeiro e que oferecesse ao viandante tanto bem-estar como as melhores hospedarias da Europa», na certeza de que «não basta que local seja belo, é preciso também que ali haja conforto». De acordo com os planos, o edifício da Avenida D. Carlos I, com 6 andares, contaria com 170 quartos, à semelhança do anexo projetado para a Rua Tenente Valadim, perfazendo «um total de 340 quartos, para todos os preços, disponíveis na maior força da estação».

 

H2  H1 

Splendid Hotel, Cascais, 1903
[AHMCSC/AESP/CMES/371]

 

O arquiteto Ventura Terra, que seria distinguido com quatro prémios Valmor, deixou uma marca indelével na paisagem urbana do Monte Estoril, que se espraiou pelo litoral do concelho de Cascais, em edifícios que traduzem de forma expressiva a modernidade e racionalidade da sua obra, fundamental para o estudo da história da arquitetura portuguesa.