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CONVERSAS 185

MARTINHO LUTERO: 500 ANOS DEPOIS, Museu Condes de Castro Guimarães dia 9 junho às 21h

 

 

 

 

 

 

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Em Março deste ano, a Fundação D. Luís I cumpriu vinte anos de actividade. Uma actividade intensa e ambiciosa desde o início, centrando nas Belas Artes o maior empenho das suas capacidades e dos seus sonhos. Cascais começou então a exibir, regularmente, inúmeras exposições de pintura, escultura, porcelana, desenho, fotografia. Mas não foi só nas Belas Artes que a capacidade de iniciativa e de mobilização da Fundação deu excelentes frutos: também se «aventurou» a experimentar outros caminhos e novos percursos, criando na Vila de Cascais espaços de debate e confronto de ideias, sendo de recordar, por exemplo, o ciclo de encontros com autores portugueses intitulado Escritores no Pátio.


À medida que os anos foram passando e a experiência se foi dilatando, manteve-se o empenho intacto mas ampliou-se a diversidade das abordagens, promovendo palestras, encontros e debates sobre as mais diversas temáticas e questões. É dessa herança que a Fundação D. Luís apresenta, até ao último trimestre deste ano, as «Conversas do Bairro», integradas na programação do Bairro dos Museus que, por decisão da Câmara Municipal de Cascais, à Fundação D. Luís I compete coordenar e tutelar.


A primeira Conversa, que decorreu na belíssima Sala da Música do Museus Condes de Castro Guimarães, incidiu no centenário do nascimento de John F. Kennedy. A segunda decorreu na icónica Casa de Santa Maria, dia 4 de Março e não poderia assentar em melhor tema para a história de Cascais e da arquitectura portuguesa, num cenário de excelência: João Miguel Henriques e Fernando António Baptista Pereira.

 

 

A próxima conversa noBAIRRO será: Martinho Lutero: 500 anos depois conversa que se realiza no Museu Condes de Castro Guimarães dia 9 junho às 21h tendo como intervenientes o Pastor Tiago Cavaco e António Camões Gouveia

 

A 31 de Outubro de 1517 frei Martinho Lutero publicou as suas 95 teses, cuja tradição evoca como tendo sido afixadas na porta lateral da igreja de Wittemberg. Este momento de acusação à prática da venda de indulgências repercute-se ao longo dos últimos 500 anos.

As disputas sobre um novo tempo, o de ruturas religiosas, devem ser revisitadas, pois os debates em torno da responsabilidade do individuo e do papel do livre-arbítrio são ainda nucleares nos nossos dias. É através do diálogo entre Tiago Cavaco e António Camões Gouveia, moderado por Ana Paula Menino que, no dia 9 de junho às 21h30, no Museu Condes de Castro Guimarães, estas e outras questões serão vivamente, estamos certos, debatidas.
Esperamos por vós...

 

A coordenação deste ciclo de «Conversas do Bairro» é assumida pelos Professores Ana Paula Menino e Mário Avelar,a quem publicamente agradecemos todo o seu empenho e amizade.

 

 

 

 

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             Raúl Lino, a Vila de Cascais
             
             e o conceito da Casa Portuguesa

 

 

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Raul Lino nasceu em 1879, em Lisboa. Com 10 anos foi estudar para um colégio interno perto de Windsor, na Inglaterra. Estudou depois na Irlanda e viajou mais tarde para a Alemanha, onde trabalhou no atelier do arquitecto Karl Albrecht Haupt autor, entre outros livros, de «Die Baukunstder Renaissance in Portugal», e de quem Raúl Lino herdou uma visão artística, cultural e ideológica rara para um jovem português daquela época; mas dele herdou também, curiosamente, a suavidade de apreciar as «coisas» portuguesas com novo olhar.

 

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Entretanto, na altura em que Raul Lino nasceu, estava a acontecer uma transformação inimaginável numa pacata vila de pescadores não muito longe de Lisboa; o rei D. Luís tinha decidido adaptar a Casa do Governador, na Cidadela de Cascais, a residência de férias da Família Real. O monarca, a rainha D. Maria Pia e os dois príncipes, Carlos e Afonso, passaram então a desfrutar da suavidade do clima ameno daquelas paragens, nos meses de Setembro e Outubro, inaugurando em Cascais uma moda até então inédita em Portugal: a moda de ir à praia apanhar sol e tomar banhos de mar.

A corte seguiu o rei, naturalmente, como o seguiram também a aristocracia e a burguesia endinheirada, transformando rapidamente a recatada vila de Cascais no rendez-vous da mais fina-flor lisboeta. Cascais depressa se transformou na primeira praia de banhos em Portugal e era, de longe, a mais bem frequentada durante a saison, começando a nascer no seu contido perímetro um inesperado aglomerado de ricas e requintadas residências.

 

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Após a morte do rei D. Luís, Dona Maria Pia não quis continuar a viver no Palácio da Cidadela onde testemunhara, com grande angústia, o enorme e prolongado sofrimento do marido. Comprou então um elegante chalet, com ampla vista para aquele mar imenso e azul, que tanto a fascinava. E sendo o chalet da rainha já mais para os lados do Monte Estoril, foi também para esses lados que a construção de novas habitações foi alastrando.

 

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Na viragem do século XIX para o século XX, e enquanto o Estoril ainda não era mais que um denso pinhal que descia até ao mar, acentuou-se, entre Cascais e o Monte Estoril, uma vasta e muito diversificada «febre» de construção de grandes mansões, palácios, palacetes e chalets, bem como diversas casas acasteladas que, estranhamente, se inspiravam, sem preconceitos, nos castelos da Idade Média.

E assim se foi erguendo, em pouco mais de um par de décadas, um amplo e heterogéneo conjunto arquitectónico que, já próximo da nossa contemporaneidade, começaria a designar-se por Arquitectura de Veraneio e a merecer esmiuçado estudo.

 

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Uma «febre» que naturalmente se intensificou a partir da construção do caminho-de-ferro que, iniciada em 1890, concluiu a ligação ao Cais do Sodré em 1895, permitindo desse modo que também o povo (pelo menos algum dele) pudesse viajar até Cascais ao domingo, nas carruagens de 3ª classe, na esperança de espreitar a Família Real ou poder também «molhar os pés».

 

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E foi nessa viragem do século que a exuberância da arquitectura de veraneio de Cascais e Monte Estoril, inspirada em modelos de construção de países europeus que nada têm que ver com a tradição portuguesa e muito menos com o seu clima geralmente ameno, começou a ser alvo de algumas críticas e razoável resistência, principalmente no exagero da inclinação dos telhados numa vila onde nunca nevou. Críticas que lançaram, já muito perto de 1900, os primeiros contornos do tema da Casa Portuguesa.

O respeitado escritor Ramalho Ortigão, amigo de Eça de Queirós e visita regular da casa que Maria Amália Vaz de Carvalho tinha em Cascais, escreve um artigo terrível, nas «Farpas» dizendo que o Monte Estoril «Parece um aflitivo manicómio de prédios».

É no embalo desse movimento estético e cultural, na viragem do século, que Raúl Lino regressa a Portugal e vai encontrar uma "coisa nova" - a vila de Cascais. É então que um dos melhores pianistas portugueses desse tempo, Alexandre Rey-Collaço, encomenda ao jovem arquitecto, então com 22 anos, a construção da sua nova casa no Monte Estoril: a Casa Monsalvat, projectada em 1901.

 

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A Casa Monsalvat é não só um espaço mágico que harmoniosamente combina todas as convicções que Raul Lino, inspirado pelos saberes do seu Mestre Karl Haupt, foi consolidando acerca do que era para si a arte de arquitectar; Monsalvat é também uma das suas grandes e mais esplêndidas obras. Uma casa projectada à dimensão do homem, prezando a vivência familiar e estimulando os serões com a família e os amigos, na qual resulta evidente a excelente relação de Lino com a luz e com a sombra, com a noção exacta do ritmo dos espaços, com a frescura dos alpendres, com a importância de uma relação privilegiada com a natureza e com a paisagem.

 

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Logo a seguir, em 1902, o abastado industrial de tabacos e herdeiro do trono irlandês, Jorge O'Neill, convida Raúl Lino para projectar uma casa mesmo à beira do Oceano Atlântico: seria a Casa de Santa Maria.

 

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A Casa de Santa Maria é, certamente, um dos símbolos maiores da Vila de Cascais, harmoniosamente pousada na formosura, rara, da paisagem, sem lhe agredir o carácter, antes procurando combinar-se com ela e valorizar-lhe a beleza.

 

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Pouco tempo depois, o jovem arquitecto que iniciara em Cascais a sua carreira de prestígio é convidado por José Relvas, em 1905, para projectar a sua casa em Alpiarça, que ficou conhecida como Casa dos Patudos e que definitivamente o lançou na ribalta da arquitectura portuguesa. Inaugurada em 1909, a Casa dos Patudos, pontuada, sem complexos, por elementos inspirados na arquitectura tradicional portuguesa, desenvolvia-se num vasto e desafogado conjunto arquitectónico, com pátios interiores, alpendres, terraços.

 

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O deflagrar da 1ª Grande Guerra condicionou temporariamente os anseios de erguer grandes, ricas e requintadas novas construções. Mas é logo em 1918, que Jorge O'Neill lhe faz nova encomenda, desta vez para o Monte Estoril, onde ergueu, com projecto de Raúl Lino, um edifício de referencia para o rico património arquitectónico do Concelho de Cascais: a Casa Verdades de Faria, que parece aconchegar-se à imponente torre de São Patrício, de inspiração medieval como era desejo de O'Neill, na qual está actualmente instalado o Museu da Música Popular Portuguesa.

 

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Passemos, por fim, uma rápida vista d'olhos pelo projecto que pode (sem grande dificuldade) considerar-se a obra mais completa e requintada de Raúl Lino: a Casa do Cipreste, construída em 1912 em plena Serra de Sintra. Lino concebeu-a para ser a sua própria residência, marcada por várias entradas e diversos percursos. Como ele próprio afirmava, a beleza de uma casa está nas suas proporções. A Casa do Cipreste tem-nas, e com enorme harmonia e beleza. É uma casa magnífica que, embora bem integrada na paisagem, a ninguém passa despercebida. Desde o traço que a concebeu tudo é de Raúl Lino ou foi meticulosamente escolhido por ele; o mobiliário, os puxadores das portas e os tapetes, os espelhos e os quadros, as jarras, os candeeiros, o desenho do jardim.

 

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A Casa do Cipreste, de Raúl Lino, vale uma visita que ficará, sem nenhuma dúvida, na memória de quem tenha esse privilégio.

 

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Ao longo de muito tempo, o jovem Arquitecto, que sempre se inspirou nos materiais e motivos tradicionais portuguese, não foi especialmente apreciado pelos seus pares, visivelmente mais entusiasmados com os ventos revolucionários que tinham começado a soprar de leste e com as correntes fortemente modernistas que inspiravam criadores como Le Courboisier, Frank Loyd Right, Walter Gropius ou a Escola de Bauhaus, que reconheciam no betão, no ferro, no vidro, nos novos matérias, a perenidade da arquitectura do futuro. Não apreciavam por aí além os "rodriguinhos" e "arabescos" com que Raúl Lino distinguia de um modo geral os seus projectos.

 

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Raúl Lino era adepto de uma arquitectura que prezava as pessoas da casa e a vivência familiar, concebendo os diferentes espaços de uma habitação voltados para pátios interiores, com recantos frescos e com sombras, frequentemente ligados por espaços de transição e valorizados por arejados alpendres, terraços e janelas rasgadas ao sol, promovendo o fruir da paisagem e impedido, na medida do possível, que a construção agredisse a paisagem.

 

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Ao longo da sua longa vida ergueu uma longa obra, tendo dado o seu traço a mais de 650 projectos dos quais, além dos que antes referimos, deve também destacar-se o Museu e Jardim-Escola João de Deus (1917), o Teatro Tivoli (1924), em Lisboa, e lembrar que a sua primeira «encomenda» foi de um dos seus maiores e mais fraternos amigos de sempre; Roque Gameiro de quem está patente neste momento, no Centro Cultural de Cascais, uma grande exposição. Uma exposição que reúne não só obras do grande aguarelista como também de toda a sua Família de Artistas.

 

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A «encomenda» surgiu poucos meses depois de Raúl Lino e Roque Gameiro terem regressado de Hannover, onde tinham conhecido Karl Haupt. A casa, essa, foi construída em 1899, na Venteira, perto da Amadora que era, na altura, pouco mais de que uma aldeia.

A partir desse primeiro projecto, na Amadora, e das muitas viagens que fez por Portugal percorrendo cidades, vilas e aldeias, Raúl Lino veio propor, com base nos conhecimentos que adquiriu e no bom gosto que já tinha, um tipo de Casa Portuguesa com força suficiente para se opor à «febre» dos palacetes e chalets, aos revivalismos tentadores e aos telhados muito inclinados para suster a neve que nunca cairia...

A arquitectura da Casa Portuguesa, embora parecendo extremamente simples, é uma arquitectura muito complexa e sofisticada que jamais poderia confundir-se com um provinciano, com uma figura apagada, com alguém que estivesse contra o progresso e a modernidade.

 

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Era de facto avesso à arquitectura que se fez com muita austeridade e grande pompa nos anos 40, 50 e 60; era a chamada arquitectura do Estado Novo que, sem medo, atacava em artigos que publicava nos jornais. Talvez por isso, a sua obra tenha sido muito intensa até à década de 1940 e pouco a partir daí. Os muitos arquitectos que naturalmente aceitavam essas encomendas e as encaravam como desafios, ripostavam com veemência, considerando Raúl Lino um provinciano e desprezando o seu estilo português suave.

 

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Mas a obra de Raúl Lino resistiu ao tempo e reconquistou o lugar que merece na História da Arquitectura Portuguesa. Além de ser, actualmente, considerado um dos mais prestigiados arquitectos portugueses, Raúl Lino foi também decorador de interiores, ilustrador, cenógrafo, desenhador, figurinista e autor de vários e excelentes livros sobre arquitectura que alcançaram grande prestígio nacional e internacional.

Foi também articulista em diversos jornais, tendo esses seus textos sido reunidos e publicados no jornal Independente com o título "NÃO É ARTISTA QUEM QUER".
Desempenhou importantes cargos no Ministério das Obras Públicas, no tempo do Estado Novo, foi Superintendente dos Palácios Nacionais e membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes.

 

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Morreu dois meses e pouco depois da revolução de Abril de 1974. Tinha 95 anos.

 

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Será possível dizer-se que Raúl Lino foi, pelas características da época em que estudou e começou a trabalhar, um arquitecto modernista? Sim; mas modernista no respeito pela tradição, tal como o seu grande Mestre, Albrecht Haupt, sempre o inspirara.

 

 

 

 

 

É esse homem, a sua grande obra e a sua influencia na cultura e na arquitectura portuguesa na primeira metade do século XX que inspirará a Conversa entre Fernando António Baptista Pereira e João Miguel Henriques na próxima sessão das Conversas do Bairro, dia 4 de Março, às cinco da tarde.

 

A entrada é livre no limite dos 50 lugares disponíveis. Caso pretenda assegurar o seu lugar faça desde já a sua reserva através do e-mail Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar , com a indicação do nome e contacto telefónico, sem o que a reserva não será considerada, podendo utilizar o mesmo endereço para qualquer pedido de informação ou esclarecimento adicional que porventura necessite.

 

 

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