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Em Março deste ano, a Fundação D. Luís I cumpriu vinte anos de actividade. Uma actividade intensa e ambiciosa desde o início, centrando nas Belas Artes o maior empenho das suas capacidades e dos seus sonhos. Cascais começou então a exibir, regularmente, inúmeras exposições de pintura, escultura, porcelana, desenho, fotografia. Mas não foi só nas Belas Artes que a capacidade de iniciativa e de mobilização da Fundação deu excelentes frutos: também se «aventurou» a experimentar outros caminhos e novos percursos, criando na Vila de Cascais espaços de debate e confronto de ideias, sendo de recordar, por exemplo, o ciclo de encontros com autores portugueses intitulado Escritores no Pátio.


À medida que os anos foram passando e a experiência se foi dilatando, manteve-se o empenho intacto mas ampliou-se a diversidade das abordagens, promovendo palestras, encontros e debates sobre as mais diversas temáticas e questões. É dessa herança que a Fundação D. Luís apresenta, até ao último trimestre deste ano, as «Conversas do Bairro», integradas na programação do Bairro dos Museus que, por decisão da Câmara Municipal de Cascais, à Fundação D. Luís I compete coordenar e tutelar.

 

 

A coordenação deste ciclo de «Conversas do Bairro» é assumida pelos Professores Ana Paula Menino e Mário Avelar,a quem publicamente agradecemos todo o seu empenho e amizade.

 

 

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Em 1992 Francis Fukuyama publicou O Fim da História e o último homem, obra onde se questionava sobre o papel da História e do Homem neste final de século. Apesar de toda a controvérsia gerada, esta não foi uma preocupação original, pois ela tem sempre acompanhado os historiadores ao longo dos séculos. Com o objectivo de dialogar sobre a importância do conhecimento do nosso passado comum, e do papel que os historiadores podem assumir neste âmbito, pelas 18:30 h do próximo dia 30 de Setembro, o Museu Condes de Castro Guimarães acolherá um "Diálogo em torno de um Fim da História..." entre António Borges Coelho e Ana Paula Menino Avelar.

 


 

 

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Cem anos passados sobre os acontecimentos da Cova da Iria, a Fundação Dom Luís I promove uma conversa sobre os seus eventuais ecos em diferentes formas de expressão artística, da literatura ao cinema, da música às artes visuais, na qual intervirão o sacerdote, poeta e Vice-Reitor da Universidade Católica, José Tolentino Mendonça, o antropólogo e Director do Instituto Universitário de Ciências Religiosas daquela instituição Alfredo Teixeira, e o Professor Mário Avelar, coordenador da recém-criada Cátedra Cascais Interartes.

 


 

 

 

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A Revolução de Outubro

Uma revolução estética no cinema e nas artes
Conversa entre Salvato Teles de Menezes, Mário Avelar e António Cunha


Assinala-se este ano o centenário de um evento que a História haveria de recordar como Revolução de Outubro. Ora, a tomada de poder pelos bolcheviques ocorreu num arco temporal de profunda revolução estética, da literatura ao cinema, da pintura às artes da música, que a História da Arte atribuiria a designação de Modernismo. É exatamente essa a dimensão que a 4ª sessão das Conversas do Bairro irá abordar através de uma análise das estratégias estéticas que vários artistas russos então desenvolveram, nomeadamente a nível das artes visuais - da pintura futurista ao cinema de Eisenstein -, para assim participarem de uma subversão radical da ordem estabelecida e da tradição.

 

 


 

 

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A 31 de Outubro de 1517 frei Martinho Lutero publicou as suas 95 teses, cuja tradição evoca como tendo sido afixadas na porta lateral da igreja de Wittemberg. Este momento de acusação à prática da venda de indulgências repercute-se ao longo dos últimos 500 anos.

As disputas sobre um novo tempo, o de ruturas religiosas, devem ser revisitadas, pois os debates em torno da responsabilidade do individuo e do papel do livre-arbítrio são ainda nucleares nos nossos dias. É através do diálogo entre Tiago Cavaco e António Camões Gouveia, moderado por Ana Paula Menino que, no dia 9 de junho às 21h30, no Museu Condes de Castro Guimarães, estas e outras questões serão vivamente, estamos certos, debatidas.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Martim Lutero - pintura de Lucas Cranach

 

 

M A R T I N H O   L U T E R O


O MONGE ALEMÃO QUE, HÁ 500 ANOS, OUSOU DESAFIAR O PODER DO VATICANO E DA IGREJA CATÓLICA

 

Em 1483 nascia no Sacro Império Romano-Germânico uma criança que recebeu, nos sacramentos do batismo, o nome Martinus Lutherus.

Lutero e a família viviam ranquilamente em Eisleben, uma cidade a meio-caminho entre Frankfurt e Berlim. A casa onde Martinho Lutero nasceu ainda existe, extremamente bem conservada, sendo actualmente a Casa-Museu Martin Luther.

Como a esmagadora maioria das pessoas daquele tempo, também o pequeno Lutero se entregou à Igreja e alimentou a sua Fé Cristã na esperança da Salvação. Foi menino de coro, sacristão na igreja de Eisleben, rezava com invulgar devoção e confessava-se todos os dias. Na viragem do século XV para o século XVI, e depois dos primeiros estudos na escola local, o pai, que gostaria que ele fosse Doutor em Leis, mandou-o estudar Teologia, Filosofia e Direito. Teria 18 anos quando ingressou na Universidade de Erfurt, em 1501.
Era um jovem bem-disposto, brincalhão: adorava tocar alaúde e dava-se muito bem com todos os colegas, que entretanto lhe deram o alcunha de O Filósofo. Foi o segundo melhor aluno do curso, que concluiu em 1505.

 

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E foi exactamente em 1505 que, dum momento para o outro, tudo mudou na vida de Martinho Lutero. Numa noite em que regressava de uma visita a casa dos pais, foi apanhado por uma medonha tempestade: o céu parecia um inferno, a chuva caía pesadamente e os raios despenhavam-se com estrondo à sua volta. Não se sabe o que poderá ter acontecido nesses longos minutos, mas - ao que se julga - o jovem estudante, aterrorizado, caído no chão de terra convertida em espessa lama, evocou o Santo Nome de Deus, pediu-lhe misericórdia e prometeu que se faria monge se saísse dali vivo.

Tendo sobrevivido à fúria da tempestade, Martinho Lutero cumpriu a promessa e entregou-se à clausura monástica, na Ordem dos Agostinhos, com impoluto fervor ascético. Um fervor com que pretendia agradar a Deus e que atingiu limites incompreensíveis, como a autoflagelação e os longos e dolorosos jejuns.

Só saiu da clausura em 1510, para integrar uma delegação a Roma. Foram a pé e a viagem durou dois meses. Ao chegar, Lutero ficou impressionado com a beleza das casas, a sumptuosidade dos palácios, a exuberante riqueza das igrejas. Viu Miguel Ângelo a pintar a Capela Sistina. E viu também a gigantesca dimensão do materialismo, da opulência e do cinismo com que os «donos» da Igreja exploravam os seus milhões de Fiéis. Regressou à Alemanha profundamente decepcionado.

Durante anos estudou Grego e Hebraico, para poder aprofundar o significado das palavras e compreender a arte retórica das Escritura, conhecimentos que de imediato aproveitou para a tradução que, quase em segredo, estava a fazer da Bíblia para língua alemã.

 

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Contudo, poucos anos mais tarde, tudo voltaria a mudar radicalmente na vida de Martinho Lutero, quando foi confrontado com o gigantesco negócio das indulgências; uma declaração do Papa, autenticada a lacre com o selo do Vaticano, que permitiam à Igreja negociar com os Fiéis a salvação do Purgatório.

O sinistro frade Johann Tetzel fora recrutado para viajar através dos territórios sob tutela do arcebispo Alberto de Mogúncia, aterrorizando as populações: "Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do Purgatório", dizia.

Lutero, abominando este negócio das Indulgências, que rendia fortunas ao Vaticano, proferiu vários sermões contra a prática desse e de outros expedientes com que a Igreja Católica dominava e explorava os fiéis. Segundo a tradição, em 31 de Outubro de 1517 Lutero afixou na porta da Igreja de Wittenberg as suas demolidoras 95 Teses que rasgaram um fosso tremendo, irreversível, entre ele e os Poderes da Igreja Católica.

 

 As 95 Teses de Lutero

 

 

As 95 Teses de Lutero foram imediatamente traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas graças à grande criação de Gutenberg: a Imprensa. Em duas semanas tinham-se espalhado por toda a Alemanha; e em poucos meses chegaram a toda a Europa. A proclamação de Martinho Lutero empolgou multidões e despertou consciências.

Irritado com tamanha afronta, o Papa Leão X ordenou que Silvestre Mazzolini, conhecido professor de Teologia, investigasse o caso. Mazzolini depressa concluiu que Lutero era um herege, condenando as teorias do frade alemão, sugerindo a sua excomunhão.

Lutero replicou, expondo novos e mais contundentes argumentos, nomeadamente em relação a alguns dogmas da Igreja, desencadeando uma violenta controvérsia. Lutero, que anteriormente professava a obediência implícita à Igreja, negava agora, abertamente, a autoridade papal e apelava à realização de um Concílio.

O Papa, decidido a suprimir por completo os pontos de vista do monge alemão, ordenou que ele fosse chamado a Roma; viagem a que Lutero se negou.

Parecia já não haver espaço para qualquer entendimento. Os escritos de Lutero circulavam amplamente por toda a Europa, penetrando principalmente em França, Inglaterra, Itália, bem como em toda a Alemanha, evidentemente.

As reformas que Lutero propunha não se referiam apenas a questões doutrinárias, mas também aos abusos eclesiásticos. Muitas dessas propostas reflectiam os interesses da nobreza alemã, revoltada com sua submissão ao Papa e, principalmente, com o facto de terem que enviar grandes riquezas para Roma.

O completo desenvolvimento da doutrina de Lutero sobre a salvação e a vida cristã foi exposto em mais um dos seus livros, "A Liberdade de um Cristão", onde reivindicava uma completa união com Cristo mediante a palavra e através da fé.

 

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Em Junho de 1520, o Papa ameaçou Lutero com a excomunhão, a menos que, num prazo de setenta dias, repudiasse a sua doutrina.
Lutero foi então chamado à Grande Dieta de Worms para publicamente renunciar, ou confirmar, as suas teses, os seus escritos, os seus livros, as suas convicções. Johann Eck, assistente do Arcebispo de Trier, mostrou então a Martinho Lutero uma mesa cheia de cópias dos seus escritos, inquirindo se os livros eram seus e se ele acreditava verdadeiramente no que as suas obras diziam.

Lutero, repudias os teus livros e os equívocos que eles contêm?, perguntou Trier
Depois de uma longa pausa que angustiou os inquisidores, Lutero respondeu:
Repudiarei quando me provarem - mediante testemunho das Sagradas Escrituras e claros argumentos da razão - que estou errado por não acreditar nem no Papa, nem nos Concílios, nem nos actuais Poderes da Santa Igreja Católica, já que está sobejamente provado que todos estão errados. [...} Esta é a minha posição. Que Deus me ajude.

 

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A recusa de Lutero perante os poderosos da Grande Dieta de Worms inflamou o entusiasmo da multidão que corria atrás de Lutero para o abraçar ou tocar, agradecendo assim o sentimento de liberdade que lhes tinha oferecido. Contudo, na sua viagem de regresso de Worms, Lutero foi vítima de um estranho rapto e levado, encapuçado, para o castelo de Wartburg. Lutero veio posteriormente a saber que o sequestro tinha sido engendrado pelo seu protector, Frederico, o Sábio, que dessa forma o pôs ao abrigo de possíveis tentativas de vingança. Martinho Lutero permaneceu no castelo durante quase um ano. Durante esse retiro forçado, Martinho Lutero trabalhou, obstinadamente, na sua célebre tradução da Bíblia para alemão. Foi com reconhecimento que ofereceu ao seu protector o primeiro exemplar da sua extraordinária obra: uma obra que permitiu aos alemães que não sabiam latim (a esmagadora maioria da população) a possibilidade de lerem e compreenderem a Bíblia escrita na sua língua materna.

 


Junho de 2017
Fundação D. Luís I

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

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             Raúl Lino, a Vila de Cascais
             
             e o conceito da Casa Portuguesa

 

 

 

A primeira Conversa, que decorreu na belíssima Sala da Música do Museus Condes de Castro Guimarães, incidiu no centenário do nascimento de John F. Kennedy. A segunda decorreu na icónica Casa de Santa Maria, dia 4 de Março e não poderia assentar em melhor tema para a história de Cascais e da arquitectura portuguesa, num cenário de excelência: João Miguel Henriques e Fernando António Baptista Pereira.

 

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Raul Lino nasceu em 1879, em Lisboa. Com 10 anos foi estudar para um colégio interno perto de Windsor, na Inglaterra. Estudou depois na Irlanda e viajou mais tarde para a Alemanha, onde trabalhou no atelier do arquitecto Karl Albrecht Haupt autor, entre outros livros, de «Die Baukunstder Renaissance in Portugal», e de quem Raúl Lino herdou uma visão artística, cultural e ideológica rara para um jovem português daquela época; mas dele herdou também, curiosamente, a suavidade de apreciar as «coisas» portuguesas com novo olhar.

 

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Entretanto, na altura em que Raul Lino nasceu, estava a acontecer uma transformação inimaginável numa pacata vila de pescadores não muito longe de Lisboa; o rei D. Luís tinha decidido adaptar a Casa do Governador, na Cidadela de Cascais, a residência de férias da Família Real. O monarca, a rainha D. Maria Pia e os dois príncipes, Carlos e Afonso, passaram então a desfrutar da suavidade do clima ameno daquelas paragens, nos meses de Setembro e Outubro, inaugurando em Cascais uma moda até então inédita em Portugal: a moda de ir à praia apanhar sol e tomar banhos de mar.

A corte seguiu o rei, naturalmente, como o seguiram também a aristocracia e a burguesia endinheirada, transformando rapidamente a recatada vila de Cascais no rendez-vous da mais fina-flor lisboeta. Cascais depressa se transformou na primeira praia de banhos em Portugal e era, de longe, a mais bem frequentada durante a saison, começando a nascer no seu contido perímetro um inesperado aglomerado de ricas e requintadas residências.

 

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Após a morte do rei D. Luís, Dona Maria Pia não quis continuar a viver no Palácio da Cidadela onde testemunhara, com grande angústia, o enorme e prolongado sofrimento do marido. Comprou então um elegante chalet, com ampla vista para aquele mar imenso e azul, que tanto a fascinava. E sendo o chalet da rainha já mais para os lados do Monte Estoril, foi também para esses lados que a construção de novas habitações foi alastrando.

 

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Na viragem do século XIX para o século XX, e enquanto o Estoril ainda não era mais que um denso pinhal que descia até ao mar, acentuou-se, entre Cascais e o Monte Estoril, uma vasta e muito diversificada «febre» de construção de grandes mansões, palácios, palacetes e chalets, bem como diversas casas acasteladas que, estranhamente, se inspiravam, sem preconceitos, nos castelos da Idade Média.

E assim se foi erguendo, em pouco mais de um par de décadas, um amplo e heterogéneo conjunto arquitectónico que, já próximo da nossa contemporaneidade, começaria a designar-se por Arquitectura de Veraneio e a merecer esmiuçado estudo.

 

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Uma «febre» que naturalmente se intensificou a partir da construção do caminho-de-ferro que, iniciada em 1890, concluiu a ligação ao Cais do Sodré em 1895, permitindo desse modo que também o povo (pelo menos algum dele) pudesse viajar até Cascais ao domingo, nas carruagens de 3ª classe, na esperança de espreitar a Família Real ou poder também «molhar os pés».

 

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E foi nessa viragem do século que a exuberância da arquitectura de veraneio de Cascais e Monte Estoril, inspirada em modelos de construção de países europeus que nada têm que ver com a tradição portuguesa e muito menos com o seu clima geralmente ameno, começou a ser alvo de algumas críticas e razoável resistência, principalmente no exagero da inclinação dos telhados numa vila onde nunca nevou. Críticas que lançaram, já muito perto de 1900, os primeiros contornos do tema da Casa Portuguesa.

O respeitado escritor Ramalho Ortigão, amigo de Eça de Queirós e visita regular da casa que Maria Amália Vaz de Carvalho tinha em Cascais, escreve um artigo terrível, nas «Farpas» dizendo que o Monte Estoril «Parece um aflitivo manicómio de prédios».

É no embalo desse movimento estético e cultural, na viragem do século, que Raúl Lino regressa a Portugal e vai encontrar uma "coisa nova" - a vila de Cascais. É então que um dos melhores pianistas portugueses desse tempo, Alexandre Rey-Collaço, encomenda ao jovem arquitecto, então com 22 anos, a construção da sua nova casa no Monte Estoril: a Casa Monsalvat, projectada em 1901.

 

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A Casa Monsalvat é não só um espaço mágico que harmoniosamente combina todas as convicções que Raul Lino, inspirado pelos saberes do seu Mestre Karl Haupt, foi consolidando acerca do que era para si a arte de arquitectar; Monsalvat é também uma das suas grandes e mais esplêndidas obras. Uma casa projectada à dimensão do homem, prezando a vivência familiar e estimulando os serões com a família e os amigos, na qual resulta evidente a excelente relação de Lino com a luz e com a sombra, com a noção exacta do ritmo dos espaços, com a frescura dos alpendres, com a importância de uma relação privilegiada com a natureza e com a paisagem.

 

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Logo a seguir, em 1902, o abastado industrial de tabacos e herdeiro do trono irlandês, Jorge O'Neill, convida Raúl Lino para projectar uma casa mesmo à beira do Oceano Atlântico: seria a Casa de Santa Maria.

 

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A Casa de Santa Maria é, certamente, um dos símbolos maiores da Vila de Cascais, harmoniosamente pousada na formosura, rara, da paisagem, sem lhe agredir o carácter, antes procurando combinar-se com ela e valorizar-lhe a beleza.

 

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Pouco tempo depois, o jovem arquitecto que iniciara em Cascais a sua carreira de prestígio é convidado por José Relvas, em 1905, para projectar a sua casa em Alpiarça, que ficou conhecida como Casa dos Patudos e que definitivamente o lançou na ribalta da arquitectura portuguesa. Inaugurada em 1909, a Casa dos Patudos, pontuada, sem complexos, por elementos inspirados na arquitectura tradicional portuguesa, desenvolvia-se num vasto e desafogado conjunto arquitectónico, com pátios interiores, alpendres, terraços.

 

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O deflagrar da 1ª Grande Guerra condicionou temporariamente os anseios de erguer grandes, ricas e requintadas novas construções. Mas é logo em 1918, que Jorge O'Neill lhe faz nova encomenda, desta vez para o Monte Estoril, onde ergueu, com projecto de Raúl Lino, um edifício de referencia para o rico património arquitectónico do Concelho de Cascais: a Casa Verdades de Faria, que parece aconchegar-se à imponente torre de São Patrício, de inspiração medieval como era desejo de O'Neill, na qual está actualmente instalado o Museu da Música Popular Portuguesa.

 

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Passemos, por fim, uma rápida vista d'olhos pelo projecto que pode (sem grande dificuldade) considerar-se a obra mais completa e requintada de Raúl Lino: a Casa do Cipreste, construída em 1912 em plena Serra de Sintra. Lino concebeu-a para ser a sua própria residência, marcada por várias entradas e diversos percursos. Como ele próprio afirmava, a beleza de uma casa está nas suas proporções. A Casa do Cipreste tem-nas, e com enorme harmonia e beleza. É uma casa magnífica que, embora bem integrada na paisagem, a ninguém passa despercebida. Desde o traço que a concebeu tudo é de Raúl Lino ou foi meticulosamente escolhido por ele; o mobiliário, os puxadores das portas e os tapetes, os espelhos e os quadros, as jarras, os candeeiros, o desenho do jardim.

 

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A Casa do Cipreste, de Raúl Lino, vale uma visita que ficará, sem nenhuma dúvida, na memória de quem tenha esse privilégio.

 

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Ao longo de muito tempo, o jovem Arquitecto, que sempre se inspirou nos materiais e motivos tradicionais portuguese, não foi especialmente apreciado pelos seus pares, visivelmente mais entusiasmados com os ventos revolucionários que tinham começado a soprar de leste e com as correntes fortemente modernistas que inspiravam criadores como Le Courboisier, Frank Loyd Right, Walter Gropius ou a Escola de Bauhaus, que reconheciam no betão, no ferro, no vidro, nos novos matérias, a perenidade da arquitectura do futuro. Não apreciavam por aí além os "rodriguinhos" e "arabescos" com que Raúl Lino distinguia de um modo geral os seus projectos.

 

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Raúl Lino era adepto de uma arquitectura que prezava as pessoas da casa e a vivência familiar, concebendo os diferentes espaços de uma habitação voltados para pátios interiores, com recantos frescos e com sombras, frequentemente ligados por espaços de transição e valorizados por arejados alpendres, terraços e janelas rasgadas ao sol, promovendo o fruir da paisagem e impedido, na medida do possível, que a construção agredisse a paisagem.

 

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Ao longo da sua longa vida ergueu uma longa obra, tendo dado o seu traço a mais de 650 projectos dos quais, além dos que antes referimos, deve também destacar-se o Museu e Jardim-Escola João de Deus (1917), o Teatro Tivoli (1924), em Lisboa, e lembrar que a sua primeira «encomenda» foi de um dos seus maiores e mais fraternos amigos de sempre; Roque Gameiro de quem está patente neste momento, no Centro Cultural de Cascais, uma grande exposição. Uma exposição que reúne não só obras do grande aguarelista como também de toda a sua Família de Artistas.

 

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A «encomenda» surgiu poucos meses depois de Raúl Lino e Roque Gameiro terem regressado de Hannover, onde tinham conhecido Karl Haupt. A casa, essa, foi construída em 1899, na Venteira, perto da Amadora que era, na altura, pouco mais de que uma aldeia.

A partir desse primeiro projecto, na Amadora, e das muitas viagens que fez por Portugal percorrendo cidades, vilas e aldeias, Raúl Lino veio propor, com base nos conhecimentos que adquiriu e no bom gosto que já tinha, um tipo de Casa Portuguesa com força suficiente para se opor à «febre» dos palacetes e chalets, aos revivalismos tentadores e aos telhados muito inclinados para suster a neve que nunca cairia...

A arquitectura da Casa Portuguesa, embora parecendo extremamente simples, é uma arquitectura muito complexa e sofisticada que jamais poderia confundir-se com um provinciano, com uma figura apagada, com alguém que estivesse contra o progresso e a modernidade.

 

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Era de facto avesso à arquitectura que se fez com muita austeridade e grande pompa nos anos 40, 50 e 60; era a chamada arquitectura do Estado Novo que, sem medo, atacava em artigos que publicava nos jornais. Talvez por isso, a sua obra tenha sido muito intensa até à década de 1940 e pouco a partir daí. Os muitos arquitectos que naturalmente aceitavam essas encomendas e as encaravam como desafios, ripostavam com veemência, considerando Raúl Lino um provinciano e desprezando o seu estilo português suave.

 

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Mas a obra de Raúl Lino resistiu ao tempo e reconquistou o lugar que merece na História da Arquitectura Portuguesa. Além de ser, actualmente, considerado um dos mais prestigiados arquitectos portugueses, Raúl Lino foi também decorador de interiores, ilustrador, cenógrafo, desenhador, figurinista e autor de vários e excelentes livros sobre arquitectura que alcançaram grande prestígio nacional e internacional.

Foi também articulista em diversos jornais, tendo esses seus textos sido reunidos e publicados no jornal Independente com o título "NÃO É ARTISTA QUEM QUER".
Desempenhou importantes cargos no Ministério das Obras Públicas, no tempo do Estado Novo, foi Superintendente dos Palácios Nacionais e membro fundador da Academia Nacional de Belas Artes.

 

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Morreu dois meses e pouco depois da revolução de Abril de 1974. Tinha 95 anos.

 

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Será possível dizer-se que Raúl Lino foi, pelas características da época em que estudou e começou a trabalhar, um arquitecto modernista? Sim; mas modernista no respeito pela tradição, tal como o seu grande Mestre, Albrecht Haupt, sempre o inspirara.

 

 

 

 

 

É esse homem, a sua grande obra e a sua influencia na cultura e na arquitectura portuguesa na primeira metade do século XX que inspirará a Conversa entre Fernando António Baptista Pereira e João Miguel Henriques na próxima sessão das Conversas do Bairro, dia 4 de Março, às cinco da tarde.

 

A entrada é livre no limite dos 50 lugares disponíveis. Caso pretenda assegurar o seu lugar faça desde já a sua reserva através do e-mail Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar , com a indicação do nome e contacto telefónico, sem o que a reserva não será considerada, podendo utilizar o mesmo endereço para qualquer pedido de informação ou esclarecimento adicional que porventura necessite.

 

 

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