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LUÍS HERBERTO

Exposição Nós e todos os outros...
30 de Julho a 25 de Setembro de 2011

 

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"Nós e todos os Outros...", pintura de Luís Herberto no Centro Cultural de Cascais. Exposição de novos trabalhos do pintor, nascido em Angra do Heroísmo, que tem actualmente o seu atelier em Carcavelos.

 

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Dos corpos pouco gloriosos

A primeira evidência que se destaca da nova série de trabalhos de Luís Herberto é a sua qualidade retratística. Todos eles foram realizados a partir da pose dos modelos com quem habitualmente trabalha. Não lhes conhecemos os nomes. Mas podemos identificar com facilidade as feições e os modos, os gestos dos corpos que se prepararam para ser olhados por durante um período de tempo mais ou menos longo, a roupa, enfim, que quase sistematicamente traduz a idade, o lugar social e a função: jovem ou adulto, trabalhador ou ocioso, talvez um (ou uma) colega ou um amigo. Ou mesmo, nada de tudo isto: o retrato, ao fixar na tela a imagem da pessoa retratada, tem esta capacidade de convocar no observador a projecção psicológica e vivencial do retratado. Que pode, ou não, coincidir com a verdade.

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 Foi Walter Benjamin que disse que era no rosto fotografado que se refugiava o último brilho da aura. Benjamin pensava nas imagens reprodutíveis pela fotografia, e reservava para a pintura, segundo ele, decadente, a permanência dessa mesma aura. Mas os anos que se lhe seguiram deram-lhe alguma razão, quanto mais não seja na irresistível compulsão que todos temos em guardar a imagem fotografada daqueles que amamos. Pouco importa: no rosto e na pose, e na sua indelével colagem a um real que passou, e que é aliás pontuado pelo recurso à fotografia e ao cinema em diversas fases do seu trabalho, reside o fascínio da pintura de Luís Herberto. Mesmo que, afinal, estes retratos não o sejam realmente: nem os modelos ostentam nome e apelido, nem a pintura que é a sua se identifica pela semelhança e o reconhecimento que definem o género do retrato. 

Restam assim corpos. E o corpo possui uma riqueza de significados inegável desde que se constituiu como motivo moderno. Não nos referimos aqui aos corpos ideais de gregos e romanos, nem sequer, seu dilecto filho, ao corpo perfeito e geométrico do modelo da Renascença. Esse corpo, ainda dotado da aura que assinalava o seu referente divino e intocável, abdicava de qualquer indício da mortalidade e decadência – da carne – que permaneciam reprimidas e ocultas. Só Caravaggio, nos seus jogos de revelação do homem e de ocultação da divindade, traduz, antes de todos os outros, a questão central do corpo: a de que é carne, condenado como tal à putrefacção e ao desaparecimento.

Um corpo pouco glorioso, assim, tal como estes corpos de Luís Herberto, que não hesita em mostrar com evidência a condição carnal que é a nossa. A inclusão de motivos eróticos japoneses ou, numa exposição anterior, de animais que evoluíam em poses ambíguas com um modelo feminino – ou ainda, também numa série antiga, de pinturas realizadas a partir de imagens do ataque às Twin Towers de Nova Iorque, concretizam a questão central do seu trabalho: a de que o corpo, centro das emoções e dos sentimentos, se prepara para o cumprimento do seu devir animal e para a destruição que inevitavelmente daí decorre.  

 

Questionado sobre o seu trabalho, o artista refere que indicou aos modelos que traduzissem o ciúme e o desamor na sua pose. Os cenários foram escolhidos pela ausência de qualidades: espaços fechados, pintados de cores neutras, como quartos de hotel ou interiores de atelier. Esta neutralidade é voluntária: Luís Herberto envolve-nos numa rede de divisórias e biombos, de câmaras, cubículos e salas que nos força a interpretar a figura que nela se destaca. Ou, dito de outra forma, a olhar e a penetrar através desse olhar no espaço íntimo do retratado. Estamos fora de cena, dentro da obscenidade (e a palavra obscenidade tem esta raiz etimológica que indica um estar dentro da sujidade), da decomposição, muito mais do que da exibição dos corpos.                               


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Voltamos ao que dissemos inicialmente: estes corpos perderam toda a aura que os ligava à imagem traduzida pela história. Conservam dessa longínqua herança a própria técnica e mesmo a possibilidade da representação. Estes dois eixos, a partir dos quais se desenvolve toda a obra de Luís Herberto, contêm em si o germe da sua negação: repare-se que o espaço que envolve cada personagem possui uma leveza e uma transparência que parecem negá-lo. Nem sempre estes corpos projectam sombras, como nem sempre o desenho consegue conter os excessos de tinta e cor dentro da forma de uma perna, de um pé, de um braço. Nesta atmosfera sem densidade, o corpo levita, torna-se imaterialidade, virtualidade. Como se o artista, afinal de contas, necessitasse da representação e das imagens deixadas pela História no nosso presente para manter a pintura dentro dos seus limites físicos. De certo modo, esta é uma pintura que se institui num tempo que também já não é o da verdadeira imagem, nem o da representação fiel de um modelo para sempre inacessível.


Georges Bataille, um pouco antes da segunda guerra mundial, defendia que o homem contemporâneo guardava a sua animalidade num tempo em que o devir deixara de fazer sentido. Essa animalidade concretizava-se no jogo, no erotismo, no riso. Ou seja, na gratuidade do corpo, despido então já de tudo o que o definira como humano. O jogo, o erotismo – ou o ciúme e o desamor, esses sinais de um vazio presente, tão evidentes na pintura de Luís Herberto.

Luísa Soares de Oliveira
(excerto do texto no catálogo)

 

 

Fotografias da exposição no Centro Cultural de Cascais


 

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Luís Herberto, natural dos Açores, professor na Universidade da Beira Interior, Covilhã, e artista cuja produção vê a luz do dia no seu ateliê de Carcavelos, é um dos representantes da moderna pintura portuguesa de registo figurativo cuja obra impressiona pelo porte e pela densidade psicológica das “personagens”. Inspirado na técnica do retrato mas adicionando-lhe o ingrediente ficcional que lhe permite transfigurar seres humanos sem história em pessoas portadoras de uma subjectividade através da qual ficam aptas a desafiar a sensibilidade do fruidor, o pintor chefia uma narrativa que só completa quando nela faz participar o seu próprio capital de experiência vivida. Entre o retrato e a “realidade” dos modelos focados há uma terra de ninguém que Luís Herberto ocupa com toda a gama dos seus recursos operacionais, sejam eles da ordem do desejo, da desordem emocional ou do contraste ilusão / decepção patente nalgumas composições mais arrojadas. A crítica de arte Luísa Soares de Oliveira, no texto que escreveu para o catálogo, refere, nomeadamente: “De certo modo, esta é uma pintura que se institui num tempo que também já não é o da verdadeira imagem, nem o da representação fiel de um modelo para sempre inacessível.”

 

 

A exposição Nós e os Outros, de Luís Herberto, uma iniciativa da Fundação D. Luís I e esteve patente ao público no Centro Cultural de Cascais de 30 de Julho a 25 de Setembro de 2011.  

 

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